sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Resposta breve a certos sedevacantistas que me escrevem


Carlos Nougué

Escrevem-me alguns sedevacantistas para dizer-me coisas que podem ser ilustradas pelo último e-mail recebido:

“Prezado Prof.
Quero ver o senhor no céu e por isso venho lhe dizer que após a morte do Papa Pio XII todos são Antipapas. É um dogma que os hereges estão fora da Igreja”.

Agradeço-lhe o voto, que asseguro é recíproco. Além disso, porém, o remetente do e-mail dá-me links para um texto sedevacantista e para a bula Cum ex Apostolatus Officio (1559), do Papa Paulo IV – como se eu não conhecesse sobejamente esta* ou os argumentos sedevacantistas. Pois bem, respondo-lhe(s) por partes.
1) O e-mail transcrito parece querer dizer que quem morre sem julgar que esses papas não são papas está condenado. Mas, como todo católico deveria saber, quem sabe quem se salva ou se condena é Deus (além de que, assim como Francisco inventa o pecado contra o ecumenismo”, o remetente do e-mail inventa o “pecado mortal contra o sedevacantismo”...). Ademais, teríamos a seguinte e curiosíssima situação: como a história só existe para a completação do número dos eleitos, e como grande parte dos sedevacantistas considera que até o (imediato) fim dos tempos não se restaurará o verdadeiro papado, segue-se que Deus só espera que os sedevacantistas completem o número dos eleitos... Confesso que nunca teria podido imaginar semelhante conclusão teológica...
2) Depois, como digo e redigo à exaustão, os papas conciliares e grande parte da restante hierarquia pós-Vaticano II nunca deixaram de emitir heresias, o que é radicalmente incompatível com a jurisdição. Sucede porém que, além de não se ter certeza teológica de que um papa possa ser deposto, em geral alguém só pode ser excomungado e pois deposto da hierarquia se for admoestado duas vezes e julgado pela devida autoridade e tribunal canônico (até porque uma coisa é dizer heresia, outra ser julgado herético e condenado por tal – distinção que é parte do bê-á-bá da Teologia). Ora, os tribunais canônicos estão nas mãos dos mesmos que emitem heresias desde o Vaticano II. Logo, como, ademais, a Igreja não se constrói de baixo para cima, e como, portanto, não podemos nós mesmos eleger uma nova hierarquia nem fundar tribunais canônicos, estamos manietados e não nos resta, ao que parece, senão esperar a conversão dos judeus e a recristianização do mundo segundo o profetizado nas Escrituras. Aliás, foi este mesmo o golpe neomodernista: em vez de saírem da Igreja, os neomodernistas ocuparam a hierarquia. Golpe de mestre de Satanás.
3) Cabe-nos, portanto, resistir à hierarquia chamada conciliar e a suas heresias, sem incorrer na pretensão absurda de tornar-nos nós mesmos (de qualquer modo) hierarquia nem, muito menos, Deus.




* Ademais, como o mostrou um Padre Ceriani de outros tempos (em Contra papólatras y papoclastas), esta bula, antes de tudo, não faz referência a papas e, depois, foi parcialmente ab-rogada pelo mesmo magistério (o que não se pôde fazer senão porque a bula não era antes doutrinal, mas disciplinar).