sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Fátima e a Rússia de Putin, ou quando se faz imperioso um “parece”


Carlos Nougué

1) Enquanto o Ocidente – ou seja, o conjunto de nações que constituíam a Cristandade e que apostataram em revolta contra as exigências do espírito –, enquanto pois o Ocidente literalmente se dissolve à proporção que comete crescentes atentados à lei natural, e enquanto a religião do homem ocupa a hierarquia da Igreja para preparar, com o mundo, o advento do Anticristo, a Rússia de Putin, por seu lado, multiplica atos em favor da lei natural, e até parece dar à religião o lugar que lhe é devido. Por isso não é de estranhar que suscite algum entusiasmo no coração de muitos católicos, apesar de outros preferirem denunciá-la como parte camuflada do projeto de um governo mundial, apontar o grande número de abortos que ali se fazem, a devassidão de seus jovens, etc.
2) Não podemos saber a ciencia cierta se a Rússia de Putin é ou não é parte camuflada de tal projeto, mas julgamo-lo improvável – o que porém não quer dizer que não possa contribuir, objetivamente, para o surgimento do Anticristo. Para que o entendamos, há que compreender o mais perfeitamente possível o que é a Rússia de hoje. Pois bem, parece constituir um ressurgimento do tzarismo e do sonho pan-eslavista da Grande e Santa Rússia. Podemos vê-lo até pelos símbolos: o último e pomposo desfile militar na Rússia deu-se sob a insígnia de um triângulo, em cujo vértice brilhava a estrela imperial e nos ângulos da base a foice e o martelo, de um lado, e a cruz oriental, do outro. Poderia à primeira vista estranhar a presença do símbolo comunista, mas a um exame mais atento deixa de fazê-lo: na verdade, o regime comunista russo teve muito do mesmo regime que derrubara, o tzarismo. Não é só que no leito de morte Lenin, entre ataques apopléticos, gritasse “Construímos um estado pior que o tzarista!”, senão que o tzarismo era uma monarquia absoluta dotada, ademais, de uma burocracia hipertrofiada, cujo ápice – o tzar – era já uma espécie de “pai” ao modo como o seriam Lenin, Stalin e os demais tiranos da União Soviética (e dos países a que esta exportou seu regime). Por conseguinte, que um estado tzarista de novo tipo ou não monárquico incorpore, por sua vez, traços do regime anterior não deve surpreender. Mas este novo tzarismo faz renascer o que o regime comunista e ateu desprezara: o cesaripapismo, ou seja, a ordenação de uma igreja, a ortodoxa, ao estado, a mesma igreja que se afastara de sob o primado de Pedro para pôr-se sob o primado de governantes civis. Tal, é claro, vai contra a devida ordenação das coisas, na qual, como dizem Santo Tomás de Aquino e o magistério da Igreja, o poder civil se ordena ao eclesiástico assim como o corpo à alma no composto humano, como a natureza à graça no justo e como a razão à fé na Sagrada Teologia. Naturalmente, o cesaripapismo é, digamos, um mal menor que o laicismo ocidental, que, apoiado por uma Roma fundada sobre o liberalismo democratista, não passa em verdade de cortina de fumaça por trás da qual se encontra o ódio à fé e ao nome cristão. Mas não nos esqueçamos de que o cesaripapismo é anticatólico e antirromano, e que, no caso russo, sempre se deu a par dos sonhos imperiais pan-eslavistas, cujo eco artístico se encontra, por exemplo, em Dostoievski. – Em outras palavras, não por constituir um mal menor devemos apoiar a Rússia de Putin, porque, falando propriamente, apoiar um mal, menor ou maior, sempre estará interditado. Isso não quer dizer que não possamos, por exemplo, votar em algum candidato menos indigno, o que implica tolerá-lo ou valer-se dele por um bem qualquer. Quanto à Rússia de Putin, se por falta de meios não podemos propriamente valer-nos dela, é todavia com toda a propriedade que devemos alegrar-nos por cada ato seu em prol da lei natural: porque cada ato seu com este fim impede multidão de ofensas graves a Deus e à glória que lhe devemos.               
3) Quanto ao Ocidente, e como já o previra o mesmo Tocqueville de A Democracia na América, encontra-se, como dito, em estado de dissolução, mas num estado de dissolução que parece mais ou menos imediatamente conducente ao Anticristo: com efeito, após as calamidades e o caos que já vivemos ou que se anunciam, parece que estará pronto o cenário para o “Apaziguador”.    
4) Pois bem, não podemos estar de acordo com a certeza com que muitos católicos – e dos mais bem formados – afirmam que prossegue a necessidade da consagração da Rússia, a pedida por Nossa Senhora em Fátima, porque se tal não se der a Rússia espalhará pelo Ocidente seu erro, seus erros. Ora, já o fez, conquanto nem de longe devamos imputar o atual estado de dissolução do Ocidente apenas a Marx e à ação da União Soviética: sua origem remonta ao tempo apostólico – em que “o mistério da iniquidade” já estava em ação –, às tabernas do Medievo, a seus goliardos, a seu carpe diem, à ofensa do rei Filipe a Bonifácio VIII, ao humanismo do outono da Idade Média, ao absolutismo e “seus sóis que nunca se punham”, à “reforma” protestante, à revolução inglesa e à francesa, etc. – tudo isso que, em verdade, propiciou o surgimento do mesmo comunismo. – Mas é inequívoco que a Rússia, como União Soviética, já espalhou seus erros, até entre o Vaticano II, e que hoje é o próprio Ocidente o que quer espalhar seus erros pela Rússia. Há que ver, portanto, se isso torna desnecessária a consagração desta.
5) Não poderia dizê-lo com certeza, com infalibilidade, senão o magistério da Igreja – o que hoje parece impossível, porque, com efeito, a religião do homem instalada na Sé de Pedro, por liberal, aborrece a própria certeza, a própria infalibilidade. Se assim é, a respeito deste tema os católicos não podemos senão opinar, o que implica, coerentemente, manifestá-lo entre certos signos: nossos textos e nossas palavras a este respeito devem estar permeados de expressões como “parece-nos” ou “talvez”, e jamais entregar-se nem à menor sombra de condenação dos que opinam diferentemente. Naturalmente, há maior e menor autoridade teológica entre os mesmos católicos; ainda porém os dotados de maior autoridade devem proceder desse modo, necessariamente – porque, quanto ao julgamento e à interpretação de aparições, de profecias, etc., autorida-de simpliciter não a pode ter, como dito, senão o magistério da Igreja. Querer substituir-se a este quanto ao que quer que diga respeito à fé e aos costumes, e como que ainda mais especialmente a aparições e a profecias, é de certo modo igualar-se ao próprio liberalismo da religião do homem, cujo traço central, insista-se, é a negação de toda e qualquer certeza e, portanto, da necessidade do mesmo magistério infalível da Igreja.
6) De minha parte, nunca até este artigo havia falado publicamente de Fátima e tudo o que envolve. É tal porém a avalancha de “certezas” e de “anátemas” mútuos em torno deste tão grave e delicado assunto, que me vejo impelido a dar minha opinião: parece-me que a consagração da Rússia é algo já anacrônico, ao menos no sentido em que entendo as palavras de Fátima. Com efeito, parece-nos que ali se faz uma promessa condicional – se..., então... –, como, aliás, as de que está repleto o Antigo Testamento: ou seja, se se consagrar a Rússia, então esta não espalhará seu erro, seus erros. Mas não se consagrou, e a Rússia já o(s) espalhou. Logo, se ainda se deve consagrar a Rússia, parece não ser pelo que dizem as palavras de Fátima tais como nos chegaram. – Mas replicar-se-á: ali se diz que afinal o Sagrado Coração de Maria triunfará. Sem dúvida alguma, respondemos: em primeiro lugar, o fato é que o comunismo soviético ruiu, o que já se pode considerar um triunfo do Sagrado Coração; em segundo lugar, as Escrituras e a Sagrada Teologia nos afiançam que Cristo (e pois sua Mãe) já triunfaram do mundo, mesmo em meio a aparentes derrotas; e, em terceiro lugar, sabemos, ainda pelas Escrituras e por nossos santos Doutores, que antes do fim dos tempos haverá um período de paz e de refulgor para a Igreja, o que indubitavelmente representará grande triunfo do Coração de Maria. Mas, para que se dê este triunfo, será necessária certa conversão do mundo à Igreja, resultante, por sua vez, como diz São Paulo em Romanos 11, 11-12, da conversão do povo judeu; se todavia tal conversão do mundo se fará também pela referida consagração da nação eslava, não o sei nem me julgo com luzes para sabê-lo. Não incorre porém em nenhum “anátema” quem o creia, nem quem não o creia – nem, insista-se, quem, como eu, prefira suspender o juízo acerta disto.