sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Resposta breve a certos sedevacantistas que me escrevem


Carlos Nougué

Escrevem-me alguns sedevacantistas para dizer-me coisas que podem ser ilustradas pelo último e-mail recebido:

“Prezado Prof.
Quero ver o senhor no céu e por isso venho lhe dizer que após a morte do Papa Pio XII todos são Antipapas. É um dogma que os hereges estão fora da Igreja”.

Agradeço-lhe o voto, que asseguro é recíproco. Além disso, porém, o remetente do e-mail dá-me links para um texto sedevacantista e para a bula Cum ex Apostolatus Officio (1559), do Papa Paulo IV – como se eu não conhecesse sobejamente esta* ou os argumentos sedevacantistas. Pois bem, respondo-lhe(s) por partes.
1) O e-mail transcrito parece querer dizer que quem morre sem julgar que esses papas não são papas está condenado. Mas, como todo católico deveria saber, quem sabe quem se salva ou se condena é Deus (além de que, assim como Francisco inventa o pecado contra o ecumenismo”, o remetente do e-mail inventa o “pecado mortal contra o sedevacantismo”...). Ademais, teríamos a seguinte e curiosíssima situação: como a história só existe para a completação do número dos eleitos, e como grande parte dos sedevacantistas considera que até o (imediato) fim dos tempos não se restaurará o verdadeiro papado, segue-se que Deus só espera que os sedevacantistas completem o número dos eleitos... Confesso que nunca teria podido imaginar semelhante conclusão teológica...
2) Depois, como digo e redigo à exaustão, os papas conciliares e grande parte da restante hierarquia pós-Vaticano II nunca deixaram de emitir heresias, o que é radicalmente incompatível com a jurisdição. Sucede porém que, além de não se ter certeza teológica de que um papa possa ser deposto, em geral alguém só pode ser excomungado e pois deposto da hierarquia se for admoestado duas vezes e julgado pela devida autoridade e tribunal canônico (até porque uma coisa é dizer heresia, outra ser julgado herético e condenado por tal – distinção que é parte do bê-á-bá da Teologia). Ora, os tribunais canônicos estão nas mãos dos mesmos que emitem heresias desde o Vaticano II. Logo, como, ademais, a Igreja não se constrói de baixo para cima, e como, portanto, não podemos nós mesmos eleger uma nova hierarquia nem fundar tribunais canônicos, estamos manietados e não nos resta, ao que parece, senão esperar a conversão dos judeus e a recristianização do mundo segundo o profetizado nas Escrituras. Aliás, foi este mesmo o golpe neomodernista: em vez de saírem da Igreja, os neomodernistas ocuparam a hierarquia. Golpe de mestre de Satanás.
3) Cabe-nos, portanto, resistir à hierarquia chamada conciliar e a suas heresias, sem incorrer na pretensão absurda de tornar-nos nós mesmos (de qualquer modo) hierarquia nem, muito menos, Deus.




* Ademais, como o mostrou um Padre Ceriani de outros tempos (em Contra papólatras y papoclastas), esta bula, antes de tudo, não faz referência a papas e, depois, foi parcialmente ab-rogada pelo mesmo magistério (o que não se pôde fazer senão porque a bula não era antes doutrinal, mas disciplinar). 

Conhecimento humano, abstração, universal


quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Se se contradizem quanto ao matrimônio civil os catecismos de São Pio X


Carlos Nougué

1) Antes de tudo, insista-se em todo o dito em Sobre o “Catecismo Maior” de São Pio X (cuja  leitura recomendo para o bom entendimento deste artigo), especialmente quanto a que o Catecismo de São Pio X em verdade são dois: o Catecismo Maior, e o Catecismo de 1912; e quanto a que, insatisfeito com o primeiro, o santo Papa mandou que se empreendesse o segundo.
2) Ora, outra vez parece haver contradição entre os dois catecismos, agora quanto ao chamado “matrimônio civil”. Com efeito, diz o Catecismo Maior

851. Deve fazer-se também o contrato civil? Deve fazer-se também o contrato civil, porque, embora não seja ele Sacramento, serve, no entanto, para garantir aos casados e a seus filhos os efeitos civis da sociedade conjugal; eis por que, em regra geral, a autoridade eclesiástica não permite o casamento religioso quando não se cumprem as formalidades prescritas pela autoridade civil”.

Mas diz o Catecismo de 1912:

411. Os esposos católicos podem também realizar o Matrimônio civil? Os esposos católicos não podem realizar o Matrimônio civil antes nem após o Matrimônio religioso: porque, se se atrevem a fazê-lo, mesmo com a intenção de celebrar em seguida o Matrimônio religioso, são considerados pela Igreja pecadores públicos”.*

3) Pois bem, mostra-se uma vez mais a insuficiência ou imprecisão do primeiro catecismo, e a suficiência – ainda que breve – do segundo (sem que haja propriamente contradição entre os dois), pelas razões seguintes.
a. A Igreja (até, uma vez mais, ao Vaticano II) sempre reagira à instituição do matrimônio civil e, em regra geral e em princípio, seguiu o expresso no Catecismo de 1912.
b. Mas o dito neste catecismo quanto ao matrimônio civil constitui um princípio geral, que ainda devia passar pelo crivo da prudência eclesiástica. Com efeito, como me disse um sábio sacerdote, onde o direito secular não reconhecia a existência do matrimônio ou a filiação sem o matrimônio civil dos pais,** então a Igreja ou autorizou ou até obrigou (como no caso chileno) a celebração deste matrimônio, que, todavia, repita-se, não é sacramento de modo algum. E, se o fez, não o fez senão para evitar que leis seculares perturbassem a estabilidade do matrimônio sacramental quanto aos efeitos civis deste contrato.
c. No Brasil de hoje, contudo, como em muitos outros países, onde qualquer união pode beneficiar-se dos efeitos das leis civis do matrimônio, este é praticamente desnecessário, com o que melhor se pode cumprir o princípio enunciado no Catecismo de 1912.




* 411. Gli sposi cattolici possono anche compiere il Matrimonio civile? Gli sposi cattolici non possono compiere il Matrimonio civile nè prima nè dopo il Matrimonio religioso: che se lo osassero anche con l'intenzione di celebrare in appresso il Matrimonio religioso sono dalla Chiesa considerati pubblici peccatori.”
** Ao contrário do que se dava na Itália de então, como se lê no mesmo Catecismo de 1912: “408. Come si contrae il Matrimonio? Il matrimonio si contrae esprimendo il mutuo consenso davanti al parroco, o un sacerdote suo delegato, ed almeno a due testimoni. // 409. Il Matrimonio celebrato in questa forma consegue in Italia anche gli effetti civili? Il Matrimonio celebrato in questa forma consegue in Italia anche gli effetti civili, perché lo Stato Italiano riconosce tali effetti al Sacramento del Matrimonio. // 410. Il Matrimonio così celebrato come consegue in Italia anche gli effetti civili? Il Matrimonio così celebrato consegue in Italia anche gli effetti civili, mediante la sua regolare trascrizione nei registri dello stato civile, fatta a richiesta del parroco.”

Pacotes promocionais de cursos online de Carlos Nougué


A partir de 10 de novembro de 2016, oferecer-se-ão três pacotes promocionais de cursos de Carlos Nougué.

1) São quatro os cursos:
• um no valor de R$ 300,00:
• e três no valor de R$ 180,00 cada um:

2) E são os seguintes os pacotes promocionais:

Pacote 1
Por uma Filosofia Tomista +
• os outros três cursos =
de R$ 840,00 por R$ 588,00 (ou seja, 30% de desconto).
Observação. Os alunos-subscritores terão acesso aos vídeos-aula durante 60 meses a contar da data de inscrição.

Pacote 2
A Existência de Deus e a Criação do Mundo – segundo S. Tomás de Aquino +
• O Melhor Regime Político segundo S. Tomás (e o atual momento político) +
• História da Música Erudita Ocidental (litúrgica e profana) =
de R$ 540,00 por R$ 405,00 (ou seja, 25% de desconto).
Observação. Os alunos-subscritores terão acesso aos vídeos-aula durante 36 meses a contar da data de inscrição.

Pacote 3
• Por uma Filosofia Tomista +
• O Melhor Regime Político segundo S. Tomás (e o atual momento político) =
de R$ 480,00 por R$ 384,00 (ou seja, 20% de desconto).
Observação. Os alunos-subscritores terão acesso aos vídeos-aula durante 36 meses a contar da data de inscrição.
  
Desconto adicional. Terão desconto adicional (de cerca de 6,61%) os que pagarem à vista, por boleto, qualquer dos pacotes. 

Para quaisquer esclarecimentos ou para pedidos de outros pacotes, escreva-se a Marcel Barboza:
     cursos@carlosnougue.com.br

Data de início do novo curso de Carlos Nougué: “História da Música Erudita Ocidental (litúrgica e profana)”


História da Música Erudita Ocidental
(litúrgica e profana)

Curso on-line de 24 horas ministrado por 
Carlos Nougué

[Curso já ministrado presencialmente e fundado
em nosso livro Das Artes do Belo, por publicar.]


“A música não tem por fim senão louvar a Deus e recrear a alma
(dentro de justos limites). Quando se perde isso de vista, já não pode haver
verdadeira música, e não restarão senão barulhos e gritos infernais.”
Joahnn Sebastian Bach


[Comunicado 1]


ABERTURA DAS INSCRIÇÕES PARA O CURSO
E INÍCIO DESTE

1) Em 10 de novembro de 2016, abrir-se-ão as inscrições para o curso online História da Música Erudita Ocidental (religiosa e profana), de 18 horas, divididas em 12 aulas de cerca de uma hora e meia cada uma.
2) As inscrições far-se-ão em nosso site:

VALOR E FORMAS DE PAGAMENTO

1) Valor total:
a) ou R$ 180,00 em até 6 parcelas sem juros no cartão de crédito;
b) ou R$ 165,30 por pagamento à vista mediante débito on-line ou boleto bancário.
Observação. O pagamento se fará, em nosso próprio site, mediante o PagSeguro.
2) Ao pagarem, os alunos-subscritores receberão automaticamente uma senha de acesso aos vídeos-aula e à bibliografia.

INÍCIO E DURAÇÃO DO CURSO 

1) O curso terá início no mesmo dia 10 de novembro próximo.
2) Os alunos-subscritores terão acesso aos vídeos-aula durante um ano a contar da data de inscrição.

EMENTA DO CURSO

I. Fundamentos teóricos: a essência e o fim da Música, uma das artes do belo; fundamentos da teoria musical.
II. Os gêneros da Música:
1. Litúrgico;
2. Profano, que se subdivide em
a. Profano religioso;
b. Profano em sentido estrito.
III. Marcos da música litúrgica:
1. Canto ambrosiano (ou milanês);
2. Canto velho-romano;
3. Canto beneventiano;
4. Canto moçárabe;
5. Canto gregoriano;
6. Canto polifônico palestriniano.
 Compositores que serão tratados:
• Giovanni Pierluigi da Palestrina; Tomás Luis de Victoria; Gregorio Allegri.
IV. Marcos da música profana:
1. Origem.
2. A música profana medieval.
3. A música profana humanista e renascentista (do século XIV ao XVII).
 Compositores que serão tratados:
 Guillaume de Machaut; John Dunstable; Guillaume de Dufay; Johannes Ockeghem; Josquin Desprez; Jacob Obrecht; John Taverner; Thomas Tallis; Orlandus Lassus; William Byrd; Giovanni Gabrieli; Carlo Gesualdo; Jan Pieterszoon Sweelinck.
4. A música barroca (do século XVII ao XVIII).
 Compositores que serão tratados:
 Claudio Monteverdi; Orlando Gibbons; Girolamo Frescobaldi; Jean-Baptiste Lully; Dietrich Buxtehude; Marc-Antoine Charpentier; Johann Pachelbel; Arcangelo Corelli; Henry Purcell; François Couperin; Alessandro Marcello; Tomaso Giovanni Albinoni; Antonio Vivaldi; Georg Philipp Telemann; Jean Philippe Rameau; Georg Friedrich Haendel; Johann Sebastian Bach. 
5. A música clássica (do século XVIII a inícios do XIX).
 Compositores que serão tratados:
• Christoph Willibald Gluck; Carl Phillip Emanuel Bach; Franz Joseph Haydn; Wolfgang Amadeus Mozart; Ludwig van Beethoven.
6. A música romântica (do século XIX a meados do XX).
 Compositores deste período que serão tratados:
 Nicolò Paganini; Franz Schubert; Hector Berlioz; Felix Mendelssohn; Frédéric Chopin; Robert Schumann; Franz Liszt; Richard Wagner; César Auguste Franck; Anton Bruckner; Johannes Brahms; Piotr Ilich Tchaikovsky; Antonín Dvórak; Charles Marie Widor; Gabriel Fauré; Gustav Mahler; Claude Debussy; Jean Sibelius; Sergei Rachmaninoff; Franz Schmidt; Richard Wetz.
7. A música moderna ou atonal (século XX-XXI).
8. A música moderna tonal.
 Compositores que serão tratados:
 Philip Glass; Arvo Pärt.
• O caso de Prokofiev e de Shostakovich.
Apêndice: A Orquestra Moderna.
Observação 1: em cada aula se darão links para a audição ou assistência de peças dos diversos compositores tratados, além de indicações discográficas e técnicas (em PDF). Tanto aquelas peças como estas indicações estarão publicadas também em nossa página A Boa Música (www.aboamusica.com.br).
Observação 2: os alunos poderão sempre escrever ao professor suas dúvidas ou perguntas; e as respostas do professor ficarão disponíveis a todos os alunos.

CURRÍCULO DE CARLOS NOUGUÉ

I. Dados pessoais:
Nome: Carlos (Augusto Ancêde) Nougué;
Nacionalidade: brasileira;
Idade: 64 anos.
II. Qualificações profissionais:
1) Professor de Filosofia, de Teologia e de Estética por diversos lugares;
2) Professor de Tradução e de Língua Portuguesa em nível de pós-graduação;
3) Tradutor de Filosofia, de Teologia e de Literatura (do latim, do francês, etc.);
4) Lexicógrafo.
III. Autor dos seguintes livros:
• Suma Gramatical da Língua Portuguesa – Gramática Geral e Avançada (São Paulo, É Realizações, 2015, 608 pp.);
• Estudos Tomistas – Opúsculos (Formosa, Edições Santo Tomás, 2016, 192 pp.);
• Comentário à Isagoge de Porfírio (Formosa, Edições Santo Tomás; por lançar-se ainda em 2016);
• Das Artes do Belo (São Paulo, É Realizações; por lançar-se);
• A Necessidade da Física Geral Aristotélica (São Paulo, É Realizações; por lançar-se como estudo introdutório da tradução do Comentário de Santo Tomás à Física de Aristóteles).
• etc.
IV. Outros cursos on-line ministrados por Carlos Nougué:
V. Responsável pelas seguintes páginas web:
• Estudos Tomistas (www.estudostomistas.com.br);
• A Boa Música (www.aboamusica.com.br).

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Uma iniciativa conjunta
Central de Cursos Contemplatio
Associação Cultural Santo Tomás

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

As Minorias Revolucionárias

Tradição, Tradição católica e falsa tradição


Paolo Pasqualucci

Sumário:
1. A noção de tradição.
2. Tradição cristã e não “judaico-cristã”.
3. Definição da Tradição católica.
4. A Tradição católica não contém nada de secreto, ela não é esotérica.
5. A noção esotérica da tradição é irracional e falsa.
5a. A inversão do significado da Cruz por René Guénon.

Em geral, todos consideram bem conhecido o sentido da palavra “tradição”. Nós, todavia, julgamos importante defini-lo corretamente. É o que faremos neste artigo.

1. A noção de tradição.

Antes de tudo, a ideia de tradição compreende a de certos valores transmitidos e preservados ao longo de gerações. Transmitidos e preservados, ou seja, ensinados e apresentados como valores a se respeitar, visto que constituem o fundamento inalterável de uma determinada concepção de mundo e, consequentemente, do modo de viver de uma sociedade — compreendida globalmente enquanto povo. Com efeito, a tradição se materializa nos costumes. A ideia de tradição está, portanto, ligada à de valor e costume. Não há aqui lugar para uma definição subjetiva do que é o valor: o valor preservado pela Tradição é precisamente aquele que se impõe pelo fato de fundar essa mesma tradição e de pertencer-lhe, a despeito do que pensam os indivíduos, que devem reconhecê-la e obedecer a ela.
Os valores expressos na tradição constituem a verdade da própria tradição. São compreendidos como dignos de pertencer à tradição porque são verdadeiros, porque se considera que nesses valores estão expressas verdades. Verdades de caráter religioso e moral, ou apenas religioso, ou apenas moral, ou moral e político, ou apenas político, ou enfim, provindo apenas dos costumes: uma verdade que é, seja o que for, objetiva, que pertence à coisa enquanto tal, independentemente do fluxo e refluxo de opiniões e acontecimentos.
A verdade que se compreende nos valores da tradição equivale à conformidade desses valores com a ideia de justiça: os valores da tradição são justos, esta é a sua verdade; e é justo observá-los e conservá-los.
A tradição é, portanto, um sistema coerente de princípios e comportamentos que constituem as normas, escritas ou não, das quais o indivíduo não pode se afastar no plano dos costumes ou das leis. Quando ligada a uma instituição ou a uma nação, a Tradição aparece com um componente épico: atos gloriosos e empresas memoráveis — batalhas, guerras.
Assim compreendida, encontramos a tradição em todos os campos da atividade humana, no sentido de que cada um deles forja sempre uma tradição a se respeitar. Até mesmo os criminosos possuem uma tradição em seus atos delituosos, de modo que podemos falar de tradições boas ou más. As tradições más, que são de um tipo diverso, ou as que estão completamente ultrapassadas, devem evidentemente ser combatidas e eliminadas, e não ser observadas, enquanto isso for possível.

2. Tradição cristã e não “judaico-cristã”.

O historicismo


sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Fátima e a Rússia de Putin, ou quando se faz imperioso um “parece”


Carlos Nougué

1) Enquanto o Ocidente – ou seja, o conjunto de nações que constituíam a Cristandade e que apostataram em revolta contra as exigências do espírito –, enquanto pois o Ocidente literalmente se dissolve à proporção que comete crescentes atentados à lei natural, e enquanto a religião do homem ocupa a hierarquia da Igreja para preparar, com o mundo, o advento do Anticristo, a Rússia de Putin, por seu lado, multiplica atos em favor da lei natural, e até parece dar à religião o lugar que lhe é devido. Por isso não é de estranhar que suscite algum entusiasmo no coração de muitos católicos, apesar de outros preferirem denunciá-la como parte camuflada do projeto de um governo mundial, apontar o grande número de abortos que ali se fazem, a devassidão de seus jovens, etc.
2) Não podemos saber a ciencia cierta se a Rússia de Putin é ou não é parte camuflada de tal projeto, mas julgamo-lo improvável – o que porém não quer dizer que não possa contribuir, objetivamente, para o surgimento do Anticristo. Para que o entendamos, há que compreender o mais perfeitamente possível o que é a Rússia de hoje. Pois bem, parece constituir um ressurgimento do tzarismo e do sonho pan-eslavista da Grande e Santa Rússia. Podemos vê-lo até pelos símbolos: o último e pomposo desfile militar na Rússia deu-se sob a insígnia de um triângulo, em cujo vértice brilhava a estrela imperial e nos ângulos da base a foice e o martelo, de um lado, e a cruz oriental, do outro. Poderia à primeira vista estranhar a presença do símbolo comunista, mas a um exame mais atento deixa de fazê-lo: na verdade, o regime comunista russo teve muito do mesmo regime que derrubara, o tzarismo. Não é só que no leito de morte Lenin, entre ataques apopléticos, gritasse “Construímos um estado pior que o tzarista!”, senão que o tzarismo era uma monarquia absoluta dotada, ademais, de uma burocracia hipertrofiada, cujo ápice – o tzar – era já uma espécie de “pai” ao modo como o seriam Lenin, Stalin e os demais tiranos da União Soviética (e dos países a que esta exportou seu regime). Por conseguinte, que um estado tzarista de novo tipo ou não monárquico incorpore, por sua vez, traços do regime anterior não deve surpreender. Mas este novo tzarismo faz renascer o que o regime comunista e ateu desprezara: o cesaripapismo, ou seja, a ordenação de uma igreja, a ortodoxa, ao estado, a mesma igreja que se afastara de sob o primado de Pedro para pôr-se sob o primado de governantes civis. Tal, é claro, vai contra a devida ordenação das coisas, na qual, como dizem Santo Tomás de Aquino e o magistério da Igreja, o poder civil se ordena ao eclesiástico assim como o corpo à alma no composto humano, como a natureza à graça no justo e como a razão à fé na Sagrada Teologia. Naturalmente, o cesaripapismo é, digamos, um mal menor que o laicismo ocidental, que, apoiado por uma Roma fundada sobre o liberalismo democratista, não passa em verdade de cortina de fumaça por trás da qual se encontra o ódio à fé e ao nome cristão. Mas não nos esqueçamos de que o cesaripapismo é anticatólico e antirromano, e que, no caso russo, sempre se deu a par dos sonhos imperiais pan-eslavistas, cujo eco artístico se encontra, por exemplo, em Dostoievski. – Em outras palavras, não por constituir um mal menor devemos apoiar a Rússia de Putin, porque, falando propriamente, apoiar um mal, menor ou maior, sempre estará interditado. Isso não quer dizer que não possamos, por exemplo, votar em algum candidato menos indigno, o que implica tolerá-lo ou valer-se dele por um bem qualquer. Quanto à Rússia de Putin, se por falta de meios não podemos propriamente valer-nos dela, é todavia com toda a propriedade que devemos alegrar-nos por cada ato seu em prol da lei natural: porque cada ato seu com este fim impede multidão de ofensas graves a Deus e à glória que lhe devemos.               
3) Quanto ao Ocidente, e como já o previra o mesmo Tocqueville de A Democracia na América, encontra-se, como dito, em estado de dissolução, mas num estado de dissolução que parece mais ou menos imediatamente conducente ao Anticristo: com efeito, após as calamidades e o caos que já vivemos ou que se anunciam, parece que estará pronto o cenário para o “Apaziguador”.    
4) Pois bem, não podemos estar de acordo com a certeza com que muitos católicos – e dos mais bem formados – afirmam que prossegue a necessidade da consagração da Rússia, a pedida por Nossa Senhora em Fátima, porque se tal não se der a Rússia espalhará pelo Ocidente seu erro, seus erros. Ora, já o fez, conquanto nem de longe devamos imputar o atual estado de dissolução do Ocidente apenas a Marx e à ação da União Soviética: sua origem remonta ao tempo apostólico – em que “o mistério da iniquidade” já estava em ação –, às tabernas do Medievo, a seus goliardos, a seu carpe diem, à ofensa do rei Filipe a Bonifácio VIII, ao humanismo do outono da Idade Média, ao absolutismo e “seus sóis que nunca se punham”, à “reforma” protestante, à revolução inglesa e à francesa, etc. – tudo isso que, em verdade, propiciou o surgimento do mesmo comunismo. – Mas é inequívoco que a Rússia, como União Soviética, já espalhou seus erros, até entre o Vaticano II, e que hoje é o próprio Ocidente o que quer espalhar seus erros pela Rússia. Há que ver, portanto, se isso torna desnecessária a consagração desta.
5) Não poderia dizê-lo com certeza, com infalibilidade, senão o magistério da Igreja – o que hoje parece impossível, porque, com efeito, a religião do homem instalada na Sé de Pedro, por liberal, aborrece a própria certeza, a própria infalibilidade. Se assim é, a respeito deste tema os católicos não podemos senão opinar, o que implica, coerentemente, manifestá-lo entre certos signos: nossos textos e nossas palavras a este respeito devem estar permeados de expressões como “parece-nos” ou “talvez”, e jamais entregar-se nem à menor sombra de condenação dos que opinam diferentemente. Naturalmente, há maior e menor autoridade teológica entre os mesmos católicos; ainda porém os dotados de maior autoridade devem proceder desse modo, necessariamente – porque, quanto ao julgamento e à interpretação de aparições, de profecias, etc., autorida-de simpliciter não a pode ter, como dito, senão o magistério da Igreja. Querer substituir-se a este quanto ao que quer que diga respeito à fé e aos costumes, e como que ainda mais especialmente a aparições e a profecias, é de certo modo igualar-se ao próprio liberalismo da religião do homem, cujo traço central, insista-se, é a negação de toda e qualquer certeza e, portanto, da necessidade do mesmo magistério infalível da Igreja.
6) De minha parte, nunca até este artigo havia falado publicamente de Fátima e tudo o que envolve. É tal porém a avalancha de “certezas” e de “anátemas” mútuos em torno deste tão grave e delicado assunto, que me vejo impelido a dar minha opinião: parece-me que a consagração da Rússia é algo já anacrônico, ao menos no sentido em que entendo as palavras de Fátima. Com efeito, parece-nos que ali se faz uma promessa condicional – se..., então... –, como, aliás, as de que está repleto o Antigo Testamento: ou seja, se se consagrar a Rússia, então esta não espalhará seu erro, seus erros. Mas não se consagrou, e a Rússia já o(s) espalhou. Logo, se ainda se deve consagrar a Rússia, parece não ser pelo que dizem as palavras de Fátima tais como nos chegaram. – Mas replicar-se-á: ali se diz que afinal o Sagrado Coração de Maria triunfará. Sem dúvida alguma, respondemos: em primeiro lugar, o fato é que o comunismo soviético ruiu, o que já se pode considerar um triunfo do Sagrado Coração; em segundo lugar, as Escrituras e a Sagrada Teologia nos afiançam que Cristo (e pois sua Mãe) já triunfaram do mundo, mesmo em meio a aparentes derrotas; e, em terceiro lugar, sabemos, ainda pelas Escrituras e por nossos santos Doutores, que antes do fim dos tempos haverá um período de paz e de refulgor para a Igreja, o que indubitavelmente representará grande triunfo do Coração de Maria. Mas, para que se dê este triunfo, será necessária certa conversão do mundo à Igreja, resultante, por sua vez, como diz São Paulo em Romanos 11, 11-12, da conversão do povo judeu; se todavia tal conversão do mundo se fará também pela referida consagração da nação eslava, não o sei nem me julgo com luzes para sabê-lo. Não incorre porém em nenhum “anátema” quem o creia, nem quem não o creia – nem, insista-se, quem, como eu, prefira suspender o juízo acerta disto.