sexta-feira, 19 de agosto de 2016

"Há saída política para o Brasil?", por Carlos Nougué


Publicado em Dextra

No mundo atual, confluem politicamente três revoluções (não confundi-lo com projetos globalistas): a liberal-democratista, a comunista e a marcusiana. A primeira provém, antes de tudo, da Revolução Francesa; a segunda, desta e da maquinação diabólica de Karl Marx; a terceira, destas duas e do “marxismo cultural” da Escola de Frankfurt, cujo representante mais efetivo e talvez até mais diabólico foi Herbert Marcuse. Pois bem, limitando-me aqui ao mais evidente (em razão do espaço dado para este texto), o mundo hoje é hegemonicamente marcusiano, pelo cumprimento da antinatural pauta globalista, e democratista, pelo regime político majoritário: o republicano fundado no sistema partidário e no sufrágio universal. Há, é verdade, monarquias fundadas nesses mesmos princípios (Espanha, Holanda, etc.), a maioria das quais, ademais, é hegemonicamente marcusiana.  A revolução mais estritamente comunista reduz-se a países da América ibérica, à Coreia do Norte e a poucos mais.
Pois bem, para que nos certifiquemos do malefício da Revolução (ou seja, daquela tríplice revolução), olhemos tanto para o convulso mundo contemporâneo – à beira da desagregação – como para a alternância de democratismo e de comunismo desde o século XIX, a qual não se atenuou senão com a referida hegemonia da revolução marcusiana – a causa principal da referida desagregação. Naturalmente, se se pergunta se é preferível viver sob o comunismo ou sob o democratismo, a resposta é óbvia em princípio: sob o democratismo, porque, como dizia Santo Tomás de Aquino, onde mais participam, menos são oprimidos. Mas trata-se de que o mesmo liberal-democratismo é o pasto de onde germinam tanto a revolução comunista como a marcusiana, como se patenteia pela referida alternância, pelo fato de que o comunismo não é senão uma extensão do jacobinismo, etc.
Ora, os defeitos do democratismo residem, justamente, em seus dois fundamentos. Para que se entenda, diga-se que tinha toda a razão o liberal conservador Edmundo Burke ao dizer que a democracia inglesa era de 400 mil famílias: batia-se assim contra o sufrágio universal, uma aberração jacobina que, por exemplo, faz que no Brasil um drogado de 16 anos tenha o mesmo peso eleitoral que o nosso Desembargador Ricardo Dip. Mas equivocava-se o mesmo Edmundo Burke ao ser, ele mesmo, o constituidor do sistema partidocrático que hoje nos avassala: porque, com efeito, não só os partidos atuam em ordem às próximas eleições, senão que, para serem tais, têm de forçosamente cristalizar-se em torno de alguma ideologia e/ou de algum centro oligárquico. Se pois se soma à partidocracia a revolução marcusiana, tem-se o apocalíptico tempo em que nos coube viver.
A título de ilustração, digo que defendo sem hesitar o regime misto propugnado por Santo Tomás de Aquino: misto de monarquia, de aristocracia e de democracia. Mas democracia não democratista, ou seja, sem partidos – e ele já conhecia os guelfos e os gibelinos... – nem sufrágio universal, um pouco aqui na linha de Burke e as suas 400 mil famílias. Diferentemente talvez de Burke, porém, o regime misto de Santo Tomás pressupunha em quase toda a extensão a virtude, na linha agora do Pio XII do pós-guerra.
Se se pergunta, todavia, se tal regime é factível no mundo ou no Brasil contemporâneos, devo dizer que parece que não. Por isso é que temos de viver constantemente a escolher algum mal menor. Sucede porém que no Brasil surgiu uma novidade que pode vir a constituir algo acima da mera linha do mal menor: o movimento monarquista liderado pela família imperial dos Orleães e Braganças. Em verdade, não posso aderir sem reservas a este movimento, porque mo impede em especial seu liberalismo econômico. Mas, antes de tudo, e ao contrário de ao menos quase todas as monarquias atuais, nossa família imperial não é de modo algum marcusiana, muito pelo contrário. Depois, não parece ser democratista, ainda que, como um Engelbert Dollfuss, não tenha como escapar de todo do democratismo imperante. Isso é o bastante para que o nosso movimento monarquista seja uma novidade ímpar no mundo atual. Mais que isso, não só cresce, conquanto em ritmo ainda muito difícil de precisar, senão que tende a crescer bem mais, pela simples razão de que o que rui no Brasil não é só o regime oligárquico-comunista-marcusiano do PT: rui a república partidocrática como um todo. Com efeito, não é possível que praticamente cem por cento dos partidos se mostrem corruptos sem que o sistema mesmo de que decorrem não o seja de modo essencial.
A nós, pois, a escolha.