sexta-feira, 29 de julho de 2016

Santo Tomás de Aquino e a fina arte de escolher o mal menor (contra desavisados)


Carlos Nougué

1) Os que se inscreveram no curso O Melhor Regime Político segundo Santo Tomás de Aquino (e o Atual Momento Brasileiro) já conhecem a fina capacidade do nosso doutor para entender que quase nunca, na política, nos é dado ter o perfeito regime político e a perfeita ordenação do poder temporal ao espiritual.
2) Longe porém de recomendar a abstenção política quando não se tenha tal perfeição, Santo Tomás passa boa parte de seu imprescindível De regno (Do Reino) a ensinar como e por que critérios se deve escolher um mal menor no âmbito da pólis.
3) Assim, o melhor regime é a monarquia (na Suma Teológica dirá que é o regime misto), seguido da aristocracia e depois da politia (ou, podemos dizê-lo, democracia não democratista, como explico no curso).
4) Mas os regimes retos podem sempre degenerar: e, com efeito, a corrupção da monarquia é a tirania; a da aristocracia é a oligarquia; a da politia é a democracia (democratista).
5) Sucede todavia que a corrupção do ótimo (a monarquia) é o péssimo, razão por que a tirania é a pior das corrupções políticas. Se pois se dá a tirania, serão preferíveis a ela não só a aristocracia e a politia, mas até as mesmas corrupções destas, ou seja, a oligarquia e a democracia (democratista).
6) Mais que isso, porém: se se trata de tais três corrupções, é preferível a democracia (democratista) à oligarquia, porque, com efeito, na democracia (democratista), que é governo de muitos, menos são oprimidos, além de que o caos que comumente nela se gera  no qual pugnam entre si os maus  permite aos virtuosos certo respiro.
7) Dizê-lo, todavia, é pouco. Porque, com efeito, se a tirania não é excessiva, senão que o tirano ainda propicia algum bem comum à pólis, devemos preferi-la não só à oligarquia e à democracia (democratista), mas até à mesma aristocracia e à mesma politia.  
8) A razão disto último é complexa mas clara: como não só a aristocracia e a politia degeneram facilmente em oligarquia e em democracia (democratista), mas de algum modo estas acabam por degenerar, também facilmente, em tirania excessiva (por reação ao caos ou às guerras civis que aquelas propiciam), é sempre preferível suportar e apoiar uma tirania não excessiva – e até rezar por ela.
9) Se aplicarmos tal fina arte de escolher o mal político menor a um período mais recente (o século XIX), veremos, com Rubén Calderón Bouchet, que todo o esforço do diplomata Metternich por constituir o Império Austro-húngaro foi altamente louvável e pois apoiável: foi a barreira possível (ainda que efêmera) contra a revolução francesa e maçônica. Mas o foi apesar de muitas coisas. Em primeiro lugar, para Metternich tratava-se antes de o altar apoiar o trono que do inverso, como requer a perfeita ordenação do temporal ao espiritual. Em segundo lugar, já não era possível ao mesmo Império Austro-húngaro deter a marcha do liberalismo econômico, e em algum grau do mesmo liberalismo político. E, no entanto, insista-se, “Metternich lutou pela continuidade do Império, e graças à sua gestão, diplomaticamente falando a mais engenhosa e sutil de sua época, a Europa se deu ao luxo de continuar a ser, por breve tempo é verdade, o lar de uma multiplicidade sinfônica de povos que concorriam para a sustentação de uma unidade espiritual” (Rubén Calderón Bouchet, El espíritu del Capitalismo).
10) Façam-se então todas as devidas adaptações (se se trata de situação política, ou seja, de algo contingente, tal é absolutamente necessário), façam-se pois as devidas adaptações de tudo o que se leu até aqui, e ter-se-á a razão por que o Império brasileiro foi um mal muito menor que a república, e por que o movimento monarquista atual e uma eventual restauração monárquica no Brasil podem vir a constituir um bem. Essa é pois a razão por que havemos de apoiá-los, ainda que com as reservas necessárias e apontadas em O movimento monarquista brasileiro e em Discurso do Príncipe D. Bertrand. 
11) Quanto à razão por que devemos eventualmente votar em Bolsonaro (vide Os católicos e as manifestações do próximo dia 31), bastaria a carta de São Pio X aos católicos italianos em que os insta a votar em candidatos “menos indignos”; mas o estudo de Santo Tomás resumido acima vem como a confirmá-lo. Com efeito, como diz Santo Tomás na Suma Teológica, “por vezes devemos induzir um mal para alcançar algum bem, assim como o cirurgião amputa uma mão gangrenada para salvar o corpo”.
12) Quanto a que Bolsonaro seja um mal menor que Lula, que Marina, que Aécio, basta ser chefe de família para sabê-lo: com Bolsonaro, se ele se mantiver na linha atual, ao menos nossa esposa não entrará em banheiros públicos com travestis, e nossos filhos não assimilarão na escola a ideologia de gênero. Se alguém não reconhece isto como um bem, contra o qual vão aqueles outros três candidatos, então nem sequer é digno de resposta: estará aquém de toda discussão.  

quinta-feira, 28 de julho de 2016

Crítica Teológica à “Amoris Laetitia”: assinada por 45 intelectuais católicos


[Nota nossa. Vale mutatis mutandis para este artigo a nota prévia posta em outro artigo. Acrescente-se apenas, quanto ao ponto do documento "A autoridade da Amoris laetitia", que ele não resolve o problema posto pelo magistério de Francisco, justamente porque não resolve o problema posto pelo magistério conciliar. Se a Amoris laetitia tem "a forma de ensinamentos magisteriais", por que não haveríamos de segui-la? A resposta dada pelo documento no ponto seguinte, "Os perigos da Amoris laetitia", é mais que insuficiente, porque, com efeito, para negar autoridade à exortação, recorre a que suas asserções "não são expressas com precisão científica". Mas justamente uma das notas das declarações magisteriais solenes e infalíveis é que são destituídas, digamos, de "demonstração científica". Também disto falarei no debate com o Prof. Carlos Ramalhete, onde espero expor suficientemente a solução que me parece efetiva para o problema posto pelo magistério conciliar.  Dito isso, porém, insista-se na importância do documento transcrito abaixo.]


O site Apologistas Católicos teve a honra de ser incumbido da tarefa de traduzir para a língua portuguesa a crítica teológica à Exortação Apostólica Amoris Laetitia, tendo esta como signatários especialistas de um grupo internacional de 45 doutos, entre teólogos, filósofos e historiadores. Esta tradução será enviada para os cardeais brasileiros, portugueses e também para um de Cabo Verde. A mesma crítica será enviada para cardeais de outros países e com as traduções próprias de suas línguas. Dentre os signatários podemos citar Roberto de Mattei, Padre Brian W. Harrison, Padre Thomas Crean (a lista "completa" está no final em "anexo"). Esta iniciativa foi aprovada por Dom Athanasius e também pelo Cardeal Raymond L. Burke. Segue o texto na íntegra. 

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A Exortação Apostólica Amoris laetitia: Uma Crítica Teológica

A exortação apostólica Amoris laetitia, emitida pelo Papa Francisco em 19 de março de 2016 e endereçada aos bispos, sacerdotes, diáconos, pessoas consagradas, casais cristãos e todos os fiéis leigos, tem causado dor e confusão para muitos católicos por conta de seu aparente desacordo com uma série de ensinamentos da Igreja Católica sobre fé e moral. Esta situação representa um grave perigo para as almas. Dado que, como Santo Tomás de Aquino ensina, inferiores são obrigados a corrigir seus superiores publicamente quando há um perigo iminente para a fé (Summa Theologiae, IIa IIae q 33 a. 4 ad 2; a. 7 co.), e os fiéis católicos têm o direito e, por vezes, o dever, de acordo com o seu conhecimento, competência e posição, de apresentarem as suas opiniões sobre questões que dizem respeito ao bem da Igreja (Código Latino de Direito Canônico, cân. 212, §3), e teólogos católicos têm um estrito dever de falar contra os aparentes erros no documento. Esta declaração sobre Amoris laetitia se destina a cumprir esse dever, e para ajudar a hierarquia da Igreja a enfrentar esta situação.

A autoridade da Amoris laetitia

Opondo-se à Heresia Austríaca


 Christopher A. Ferrara



 Tenho o privilégio de apresentar o artigo do Dr. Peter Chojnowski “Corporation Christendom: The True School of Salamanca” [Corporação Cristandade: A Verdadeira Escola de Salamanca], que expõe com habilidade como o ensinamento de São Tomás de Aquino, Santo Bernadino de Sena e Santo Antonino de Florença e dos escolásticos tardios espanhóis sobre os preços justos e os salários foi deturpado pelos defensores da chamada Escola Austríaca de economia. 
O artigo do Dr. Chojnowski é um primeiro passo importante na montagem de uma resposta católica tradicional às ambições infladas da Escola Austríaca, cujas duas grandes divindades, os falecidos pensadores liberais judeus Ludwig von Mises e Murray Rothbard, escreveram as obras fundamentais do movimento austríaco: o tomo maciço Ação Humana (1949), por Mises, e o igualmente maciço Homem, Economia e Estado (1962), por Rothbard. Estes dois livros compreendem o Velho e o Novo “Testamento” do que equivale hoje a um culto radical do laissez-faire social e econômico, que, é triste dizer, conta com um número crescente de adeptos católicos. 

O culto do Laissez-Faire

Não uso a frase “ambições infladas” ou a palavra “culto” levemente. O Mises Institute, fundado para pregar um evangelho de “liberdade” social e econômica ao mundo, orgulha-se do sucesso do movimento em termos quase messiânicos. Como o Instituto – dirigido por um católico, Lew Rockwell – declarou recentemente: 
“Temos sido extremamente eficazes na construção de um movimento global para a liberdade e sua base intelectual. Hoje austríacos e libertários formam um movimento coeso em todo o mundo, unidos em princípios, publicando como nunca antes, e ensinando as multidões por todos os meios disponíveis. Por esta razão, a Escola Austríaca foi chamada de o mais coerente e ativo movimento intelectual internacional desde o marxismo”.[1] 
O tributo do Instituto Mises feito a Rothbard por ocasião do décimo aniversário da sua morte tem o sabor de uma dulia cultual: 
“E, assim, ao querido Murray, nosso amigo e mentor, o vice-presidente do Instituto Mises, o acadêmico que nos deu a orientação e o cavalheiro que nos mostrou como encontrar alegria no confronto com o inimigo e no avanço da verdade, a equipe e os estudiosos do Instituto oferecem este tributo, juntamente com os milhões que têm sido atraídos por suas ideias. Que suas obras sempre estejam disponíveis para todos os que gostam de aprender sobre a liberdade e de fazer sua parte para lutar pela pedra angular da própria civilização. Que seu legado permaneça para sempre [!] e que possamos todos tornar-nos guerreiros felizes pela causa da liberdade.”[2]
Céu e terra passarão, mas as palavras de Rothbard não passarão.

Que tipo de tomista é este?

segunda-feira, 25 de julho de 2016

“El Espíritu del Capitalismo”: obra fundamental de Rubén Calderón Bouchet


C. N.

Conquanto tardiamente, acabo de ler El Espíritu del Capitalismo (Buenos Aires, Nueva Hispanidad, 2008, 510 pp.), de Rubén Calderón Bouchet († 2012, e pai do Padre Álvaro Calderón). É obra fundamental, cuja leitura recomendo efusivamente.
Dou abaixo o sumário da obra, e links para vídeos com seu autor.   

ÍNDICE

Orações pela escola de meninos dos Dominicanos de Avrillé, e por que devemos lutar no Brasil


C. N.

No início do ano de 2017, acontecerá na França a inspeção da escola de meninos dos Dominicanos de Avrillé (La Haye-aux-Bonshommes, Angers). O Ministério da Educação do governo socialista (e radicalmente anticatólico) ameaça fechá-la por não “defender suficientemente os valores republicanos”. Dirijamos pois instantes orações pela escola deste baluarte do cristianismo.
E é para que não nos vejamos os católicos brasileiros sob tacões como os dos revolucionários republicanos franceses ou espanhóis que devemos lutar no Brasil não só pela queda do governo do PT mas contra todas as correntes revolucionárias (e não se tenha dúvida: o que imediatamente se substitui ao PT não deixa de ser revolucionário). Está na hora de os católicos nos livrarmos de uma vez da inércia querida pela CNBB (majoritariamente aliada dos revolucionários) e, com a voz que nos for possível, somar-nos às manifestações do dia 31 e demais, mas distinguindo-nos perfeitamente por lemas próprios: liberdade para o ensino católico, pelo homeschooling, pela família, contra a ideologia de gênero, contra o aborto – sempre com o rosário ou terço na mão, e sempre sob o estandarte de Cristo Rei.
Graças à inépcia e à cupidez do mesmo PT, e ao contrário do que muito infelizmente sucede hoje aos católicos de quase toda a Europa, deixamos no Brasil de estar totalmente sob tacões revolucionários. Logo, possibilitaram-se-nos meios mais diretamente políticos de atuação. Não os desperdicemos, enquanto é tempo. 
Em tempo: e apoiemos a restauração monárquica, contra a podridão republicana.    

O Cardeal Pie de Poitiers e as disputas


Assim como um juiz não pode sentenciar em juízo
até haver escutado as duas partes, assim o homem que
estuda filosofia julga melhor se observa o choque
das ideias, como o de dois adversários em pugna. 
Santo Tomás de Aquino


Cardeal Pie de Poitiers

Deve-se preferir seguramente a calma exposição dos dogmas à discussão: nossos ilustres predecessores disseram-no com frequência, e seria muito fácil fazer apenas uma coleção de seus escritos em que o dizem. Mas as exigências do tempo colocavam-nos também a eles em meio a polêmicas, e, quando se leem as suas obras, compreende-se que a polêmica ocupa talvez até a maior parte delas. 
Mas não devemos lamentar-nos disto! Foi para que se vissem brotar daqueles golpes as mais brilhantes centelhas de seu gênio, os traços mais luminosos de seu espírito. Não sei se a tradição católica seria irreparavelmente prejudicada mais com a perda dos livros de apologética e dos tratados de polêmica do que com a dos de catequese e das homilias pastorais. 
Dizem, eu sei, que a contradição pode dar demasiado peso ao agressor, que lhe pode conciliar o favor popular, enquanto o silêncio e o desprezo o deixam afundar na obscuridade e no silêncio. Respondo logo que a Igreja, sem supervalorizar ou engrandecer propositadamente nenhum adversário, tem o costume de não subestimar nenhum, e, portanto, se qualquer se sentir honrado, a culpa não será da Igreja.
Acrescentemos que a teoria do silêncio é um pouco demasiado cômoda para não ser suspeita, e verificamos que, relativamente ao passado, não pode contar a seu favor com o sucesso nem com a autoridade nem com o exemplo.
Uma vez que se insiste tanto na dificuldade de observar a caridade nas discussões religiosas, respondo que os grandes Doutores nos dão exemplos muito claros e regras bem precisas a este propósito. Em textos que todos conhecemos, aconselham o comedimento, a moderação, a indulgência para com os próprios inimigos de Deus e da verdade, o que não os impede de usar, sem contradizer estes princípios, a arma da indignação, às vezes ainda a do ridículo, com uma vivacidade e com uma liberdade de linguagem que incomodariam nossos ouvidos delicados. 
A caridade, com efeito, encerra antes de tudo o amor de Deus e da verdade. Não teme, por isso, desembainhar a espada ao tratar-se dos interesses da causa sagrada, sabendo que mais de um inimigo pode ser refutado e curado somente com golpes ousados e talhos salutares. 

sábado, 23 de julho de 2016

A Igreja e os doentes ao longo do tempo


• Como se lê em Explosion de charité - par les Dominicains d'Avrillé, Cristo passou por esta terra fazendo o bem, especialmente aos doentes. Desde o início, o cristianismo imitou-o.
• No ano 252, dá-se uma epidemia de peste no Império Romano. Em Cartago, os pagãos fogem, abandonando seus doentes aos cuidados dos cristãos sob a autoridade do bispo São Cipriano (que será martirizado pelos mesmos pagãos em 258). – Em 268, dá-se o mesmo em Alexandria.
• Século IV: desde o fim das perseguições aos cristãos (313), surgem hospitais, orfanatos, asilos em todo o Império Romano. O primeiro hospital conhecido é fundado em Cesareia pelo bispo São Basílio, que cuida, ele mesmo, dos doentes. – O primeiro hospital de Roma é fundado por Santa Fabíola. Esta nobre patrícia reúne os doentes nas ruas, lava-os, enfaixa-os, alimenta-os, gasta toda a sua fortuna por eles. – O senador Pammachius (amigo de São Jerônimo) faz o mesmo: morrerá despojado de tudo, no hospital que ele mesmo fundou. São João, o Capelão, funda o primeiro hospital em Alexandria; São Crisóstomo em Constantinopla; Santo Efrém em Edessa; etc.
• Idade Média: asilos e hospitais multiplicam-se por toda a cristandade. – O Papa Símaco († 514), o Papa Pelágio II (em 580) e o Papa São Gregório Magno († 604) fundam hospitais e orfanatos. – O historiador Hurter estima que no século XIII a França possuía 20.000 hospitais, que recebiam doentes, órfãos, pobres e peregrinos. – Obra-prima desta caridade em ato: o Hôtel-Dieu de Beaune, fundado em 1443.
• Milhares de religiosos e de religiosas dão-se totalmente a Cristo na pessoa dos doentes: Irmãos Hospitaleiros (São João de Deus, 1537); Camilianos (São Camilo de Lélis, 1584), etc. Em trinta anos (1584-1614), 220 dos primeiros religiosos camilianos morrem ao lado dos doentes que eles assistem.
• Na Europa e no mundo inteiro (Ásia, África, terras muçulmanas), a Igreja Católica é a verdadeira mãe dos hospitais e das obras de caridade. Outras religiões imitaram-na mais ou menos tardiamente, mas sem jamais superá-la nem igualá-la.

quarta-feira, 20 de julho de 2016

“A ‘Amoris laetitia’ abre os braços da Igreja e da sociedade para a demolição programada do casamento e da família.” Quem o diz? Nós? Não: o IPCO


[Nota nossa. É magnífico por muitos ângulos este texto do IPCO, apesar de incorrer num defeito de sempre: não mostrar com toda a clareza que os escândalos de Francisco têm raiz determinada, a saber, o Concílio Vaticano II e o magistério que se lhe seguiu. E, com efeito, naquele se suprimiu a devida ordenação dos fins do matrimônio: em vez de reafirmar que seu fim segundo (o apoio mútuo dos cônjuges) se ordena ou se subordina a seu fim primeiro (a geração e a educação da prole), o Vaticano II nivelou-os, igualou-os, em sutil mas efetiva subversão de algo que é de fé. Claro, possivelmente os que operaram tal subversão não estariam de acordo com os escândalos da Amoris laetitia, tão bem analisados e assinalados pelo IPCO. Mas, como já se tornou comum dizer, “as ideias têm consequências”, e estas estão para aquelas assim como a flor está para sua raiz. Com efeito, possivelmente tampouco Lutero apoiaria tudo o que se vê hoje entre os protestantes; mas tudo isto brotou e brota do que fez Lutero. – Feitas pois estas necessárias observações, leia-se o oportuno e profundo estudo que publicamos abaixo.]

Apelo aos prelados e aos movimentos leigos silenciosos

Publicada em 8 de abril p.p., a Exortação Apostólica Pós-Sinodal Amoris laetitia (AL) foi acolhida com ruidoso entusiasmo pela mídia laica[1] e setores progressistas da Igreja Católica, e com estupor e apreensão em meios católicos conservadores, particularmente entre eclesiásticos e leigos de destaque, versados em doutrina moral.
De modo especial o documento causou dolorosa impressão naqueles que vinham acompanhando com particular atenção o desenrolar dos acontecimentos eclesiásticos a partir do Sínodo da Família de outubro de 2014, e esperavam do Santo Padre, a propósito do posterior Sínodo de 2015, uma palavra esclarecedora e firme na linha da doutrina e da tradição católicas. Referimo-nos aos quase novecentos mil fiéis do mundo todo, incluindo Cardeais, Arcebispos e Bispos, que enviaram ao Papa Francisco uma “Filial Súplica”, na qual Lhe pediam respeitosamente que não permitisse “a relativização do próprio ensinamento de Jesus Cristo” no tocante à família. Após a publicação de Amoris laetitia esse escol da população católica mundial só teve a experimentar o gosto amargo da decepção. O Papa Francisco, tão pródigo em receber e afagar acatólicos do mundo todo, não teve uma palavra para esses fiéis que nada pediam para si, mas apenas para o bem da Igreja. Voltaremos ao assunto com mais pormenores.

 

I — A nova disciplina “caso a caso” introduzida pela Exortação


Essa reação deve-se a que, dizendo embora não pretender mudar a doutrina da Igreja Católica sobre a indissolubilidade do matrimônio, a AL introduz de fato uma enorme mudança na sua prática pastoral no tratamento das chamadas “situações irregulares”, em particular dos divorciados recasados, permitindo que estes sejam ouvidos na confissão sem o propósito de regularizar sua situação, e que assim recebam a Sagrada Comunhão.
Tal autorização não foi concedida em termos gerais, pois para isso dever-se-ia alterar o Código de Direito Canônico, o qual no seu cânon 915 proíbe dar a comunhão aos “que obstinadamente perseverem em pecado grave manifesto”. A Exortação limita-se a encorajar os pastores de almas a “acompanhar” as pessoas que vivem numa união matrimonial irregular e a fazer junto com elas um “discernimento” de sua situação, com vistas a integrá-las plenamente na vida da Igreja. Em nota (nº 351) é explicado que dita integração pode chegar até a recepção dos sacramentos. Em outras palavras, segundo a interpretação natural do capítulo VIII da Exortação, a absolvição sacramental e a Eucaristia podem ser concedidas, desde que seja “caso a caso”[2].
Trata-se, portanto, de mudança substancial, que foi saudada por seu principal promotor, o Cardeal Walter Kasper, como “um novo capítulo na história da Igreja em mais de 1700 anos”[3].

terça-feira, 19 de julho de 2016

Os católicos e as manifestações do próximo dia 31


C. N.

O que moverá unitariamente os milhões de pessoas que comparecerão às manifestações do próximo dia 31 são, antes de tudo, duas coisas: o impeachment de Dilma, e a preservação tanto das investigações da corrupção como das prisões delas decorrentes. E ambas as coisas são em si importantes: com efeito, os governos do PT, cuja corrupção em benefício próprio e da comunistização da América ibérica alcançou patamares talvez sem equivalente em todo o mundo, levaram o país e seu povo à bancarrota e ao desespero.
Mas isso mesmo enseja outro motor das manifestações, o qual, se não alcança o mesmo grau de clareza na mente do conjunto dos manifestantes, se cifra magnificamente no lema “A bandeira brasileira jamais será vermelha”. É a luta contra o comunismo (doutrina iníqua em si, como decretou infalivelmente Pio XI), luta que cresceu efetiva e beneficamente nos últimos anos – e segue crescendo.
A partir daí, já não haverá consenso entre os manifestantes. Suas lideranças movem-se por doutrinas ou fins díspares: liberalismo republicano, militarismo, monarquia, além do apoio a este ou àquele candidato à presidência, etc. Ora, o católico, segundo doutrina infalível do mesmo magistério (posta porém de modo diverso de como se deu a definição contra o comunismo), não pode ser liberal nem defender o liberalismo. O militarismo (ou seja, a reivindicação de uma intervenção militar) parece-me de todo utópico no atual momento. Quanto aos candidatos à presidência, se se mantiver o quadro atual, havemos de votar em Bolsonaro contra Lula, contra Marina, contra Aécio, assim como nos Estados Unidos haveríamos de votar em Trump contra Clinton: o que porém não quer dizer que nos identifiquemos com Bolsonaro nem, muito menos, com seu partido, protestante. Trata-se de um mal (bem) menor que os demais, ao menos se Bolsonaro se mantiver na linha em que está. Outras considerações sobre isto, deixo-as para outro momento e lugar.
Mas parece-me que devemos apoiar decididamente a restauração da monarquia, pelas razões dadas em O movimento monarquista brasileiro e em Discurso do Príncipe D. Bertrand. Em resumo, o movimento monarquista e seu fim podem vir a constituir um efetivo bem, ainda que não o bem absolutamente desejável (mas também absolutamente impossível hoje) no âmbito do político.
Por isso, antes de tudo, devemos os católicos portar nas manifestações do dia 31 sinais de que apoiamos a restauração da monarquia. Isto porém é insuficiente: devemos, ademais, marchar ali com um rosário ou terço na mão. Mais ainda: em conjunto, devemos mostrar de qualquer modo não somente que somos pelo impeachment, pela prisão dos corruptos, contra o comunismo, mas ainda que somos pela liberdade para o ensino católico, pelo homeschooling, pela família, contra a ideologia de gênero, contra o aborto, contra, enfim, toda a chamada pauta global, derivada da revolução atualmente hegemônica (a do “marxismo cultural”). E por fim, e mais importante: que marchamos sob o estandarte de Cristo Rei.
Havemos pois de distinguir-nos – sem deixar de generosamente aliar-nos à maioria do povo brasileiro. Até porque, fazendo-o, contribuiremos para que nossas famílias e filhos tenham algum respiro e não se vejam submersos de todo na ignomínia que tão tristemente padecem hoje, por exemplo, os católicos espanhóis.
Cumpramos pois nosso dever, e empenhemo-nos em levar às manifestações o maior número possível de pessoas.   

domingo, 17 de julho de 2016

La Iglesia y la esclavitud - por Jaime Balmes


EL PROTESTANTISMO COMPARADO CON EL CATOLICISMO
EN SUS RELACIONES CON LA CIVILIZACION EUROPEA

Dr. D. Jaime Balmes 1842

TOMO 2


La Iglesia católica empleó para la abolición de la esclavitud no sólo un sistema de doctrinas y sus máximas y espíritu de caridad, sino también un conjunto de medios prácticos. Punto de vista bajo el cual debe mirarse este hecho histórico. Ideas erradas de los antiguos sobre la esclavitud. Homero, Platón, Aristóteles. El cristianismo se ocupó desde luego en combatir esos errores. Doctrinas cristianas sobre las relaciones entre esclavos y señores. La Iglesia se ocupa en suavizar el trato cruel que se daba a los esclavos.

AFORTUNADAMENTE la Iglesia católica fue más sabia que los filósofos, y supo dispensar a la humanidad el beneficio de la emancipación, sin injusticias ni trastornos: ella regenera las sociedades, pero no lo hace en baños de sangre. Veamos, pues, cuál fue su conducta en la abolición de la esclavitud.
Mucho se ha encarecido ya el espíritu de amor y fraternidad que anima al Cristianismo; y esto basta para convencer de que debió de ser grande la influencia que tuvo en la grande obra de que estamos hablando. Pero quizás no se ha explorado bastante todavía cuáles son los medios positivos, prácticos, digámoslo así, que echó mano para conseguir su objeto.
Al través de la oscuridad de los siglos, en tanta complicación y variedad de circunstancias, ¿será posible rastrear algunos hechos que sean como las huellas que indiquen el camino seguido por la Iglesia católica para libertar a una inmensa porción del linaje humano de la esclavitud en que gemía? ¿Será posible decir algo más que algunos encomios generales de la caridad cristiana? ¿Será posible señalar un plan, un sistema, y probar su existencia y desarrollo, apoyándose no precisamente en expresiones sueltas, en pensamientos altos, en sentimientos generosos, en acciones aisladas de algunos hombres ilustres, sino en hechos positivos, en documentos históricos, que manifiesten cuál era el espíritu y la tendencia del mismo cuerpo de la Iglesia? Creo que sí: y no dudo que me sacará airoso en la empresa lo que puede haber de más convincente y decisivo en la materia, a saber: los monumentos de la legislación eclesiástica.

A Igreja Católica e a abolição da escravidão no Brasil

Sobretudo pela ação do arcebispo Dom José Pereira da Silva Barros, capelão-mor de Dom Pedro II, e que viria a ser conhecido como o “Bispo Abolicionista”, a Igreja Católica foi um dos principais atores da abolição da escravatura no Brasil. Com efeito, em 1887 Dom José, desde sempre abolicionista e muito ligado tanto ao Papa Pio IX como ao Papa Leão XIII, anunciou que a abolição da escravidão no Brasil seria “um bom presente ao Papa”. A Dom José Pereira, seguiram-se na defesa da causa abolicionista o arcebispo da Bahia e o de São Paulo; e Dom José Pereira, por sua luta a favor da abolição da escravatura, foi das poucas pessoas homenageadas publicamente por Dom Pedro II e por Dona Isabel. Recebeu destes o título de Conde de Santo Agostinho, o qual ele não teve dinheiro para retirar, por ser, como disse ele mesmo, um homem pobre. Com efeito, Dom José tornara-se célebre em sua cidade natal por ter doado para obras de caridade toda a fortuna herdada de sua família.
Rodrigo Augusto da Silva, em sua defesa da Lei Áurea na Câmara Geral, citou a Igreja Católica como um dos motores da abolição da escravatura.

O Cristianismo e os pobres ao longo do tempo


Os primeiros cristãos

• Como se lê em Explosion de charité - par les Dominicains d'Avrillé, desde seu aparecimento o cristianismo é como uma explosão de caridade. Em Jerusalém, os primeiros cristãos vendem seus bens para dar aos pobres (At 4, 32).
• O pagão Luciano de Salmósata (125-192) zomba muito dos cristãos em sua sátira Peregrinus. Mas reconhece seu “incrível afã” de exercer a caridade: “Eles não se poupam incômodo, nem despesas, nem trabalho”.
• Em face dos perseguidores, os primeiros cristãos podiam declarar: “O estado esqueceu que nos deve a vida de seus pobres, que pereceriam, ah! se não os viéssemos socorrer?” (Tertuliano).
• O diácono Lourenço reúne os pobres socorridos pela Igreja: “Eis os tesouros dos cristãos, não temos outros”.

Século IV

• Desde o fim das perseguições (313), riquíssimos romanos convertidos ao cristianismo vendem todos os seus bens para pôr-se, eles mesmos, ao serviço dos pobres: Melânia, o senador Paulino, et alii.

Idade Média

• Os reis cristãos destacam-se por sua caridade. Santo Estêvão da Hungria († 1038) lava, ele mesmo, os pés dos pobres. Santo Eduardo da Inglaterra († 1066) despoja-se para socorrê-los. Santa Margarida, rainha da Escócia († 1093), e Santa Elisabete da Hungria († 1231) passam literalmente a vida a ocupar-se dos pobres. São Luís, rei da França († 1270), reúne toda semana os pobres em sua câmara para servi-los, ele mesmo, à mesa. E citem-se ainda Santo Edmundo, São Casimiro da Polônia, São Leopoldo da Áustria, Roberto, o Piedoso, Santa Brígida da Suécia, Santa Edviges da Silésia, Santa Margarida de Saboia, et alii.   

Tempos modernos

• Século XVII: as Filhas da Caridade, de Santa Luísa de Marillac; século XVIII: as Filhas da Sabedoria; século XIX: as Pequenas Servidoras dos Pobres, de Joana Jugan: todas estas e dezenas de outras congregações ou famílias religiosas surgem regularmente para socorrer os miseráveis, atraindo centenas e milhares de almas que se sacrificam inteiramente à caridade.

sexta-feira, 15 de julho de 2016

A Igreja e a escravidão ao longo do tempo

• Como se lê em Explosion de charité - par les Dominicains d'Avrillé, tanto na Roma antiga como em Atenas, a imensa maioria da população era constituída de escravos. Durante toda a sua história, o islã praticou o tráfico maciço de escravos. Na Europa, ressurge a escravidão quando no fim da Idade Média o espírito cristão se enfraquece.
Mas declarara São Paulo: “Já não há livre nem escravo”. A partir desse momento, sem revolução nem agitações, a caridade cristã começou a dissolver a escravidão. Os cristãos libertaram seus escravos. Na França, a rainha Santa Bathilde (626-680) consagrou a interdição da escravidão.
Lentamente mas seguramente, com efeito, a Igreja fez que se abolisse a escravidão, não porém revoltando ou sublevando os escravos, mas dando o espírito cristão a seus senhores. Ecoavam outras palavras de São Paulo: “Não os trateis com ameaças, sabendo que tendes uns e outros no céu um mestre comum, diante do qual não há acepção de pessoa”.
Hermes, então, prefeito de Roma sob Trajano, libertou seus 1.250 escravos no dia de seu batismo. Santo Ovídio libertou 5.000 escravos, Santa Melânia 8.000, etc.  
O Papa São Símaco († 514) resgatou e libertou os escravos da Ligúria. Do mesmo modo, São Gregório Magno († 604) e São Zacarias († 752) pagaram o resgate de escravos até na África.
• Durante esse tempo, milhões de cristãos foram reduzidos à escravidão pelos muçulmanos de Argel, de Túnis, etc. Os religiosos Trinitários (fundados em 1198 por São João de Matha) e os religiosos Mercedários (fundados em 1218 por São Pedro Nolasco) dedicaram-se a libertá-los.
• São Pedro Pascal (bispo de Jaén) entregou todos os seus bens e depois sua própria pessoa para resgatar os cativos dos turcos. Fiéis pagaram seu resgate, mas ele preferiu empregá-lo na libertação das mulheres e das crianças, e morreu cativo em 1300.
• Em pleno Renascimento do espírito pagão (século XV e XVI), os papas Paulo III (20 de maio de 1537) e Urbano VIII (22 de abril de 1639) opuseram-se firmemente à escravidão dos ameríndios.
• Muitos papas condenaram igualmente o tráfico dos negros: Eugênio IV (13 de janeiro de 1435), Pio II (7 de outubro de 1462), Paulo III (2 de junho de 1537), Inocente XI (1683), Pio VII (1815), etc.
• Numerosos padres ajudaram os escravos negros, notadamente São Pedro Claver (†1654), que acrescentou a seus votos religiosos o de consagrar sua vida inteira ao serviço dos escravos, e não hesitou em assinar: “Pedro Claver, escravo dos negros para sempre”. 

Explosion de charité - par les Dominicains d'Avrillé



De árboles y frutos – II

José María Hernández

1. En la Catena Áurea, santo tomás suele poner comentarios discordantes de los padres. En el caso que nos ocupa, S. Agustín, al parecer, niega que el hombre malo pueda hacer obras buenas, y San Jerónimo dice lo contrario acá: “Preguntemos a los herejes, que admiten en sí mismos dos naturalezas contrarias si, según su modo de pensar, un árbol bueno no puede producir malos frutos, ¿cómo Moisés, árbol bueno, ha pecado junto a las aguas de la contradicción (Núm 26,72), San Pedro negó al Señor en la pasión diciendo: ‘No conozco a ese hombre’, y el suegro de Moisés, árbol malo que no creía en el Dios de Israel, le dio un buen consejo?”

2. Concentrémonos ahora en esa cita de san agustín puesta por santo tomás en la Catena Áurea. Esta cita del Opispo de Hipona ha quedado reprobada por el Concilio de Trento, si se entiende que en ella San Agustín afirma que un hombre malo no puede hacer obras buenas, y que, por tanto, y al no existir los actos indiferentes en concreto, todo lo que hace es pecado. En la época de San Agustín, ese punto era opinable, al no haber sido definido por la Iglesia. Santo Tomás, por esa misma razón, pone en la Catena Aurea esta cita: “De aquí deducen los maniqueos que un alma no puede volverse buena, ni una buena en mala, como si se hubiese dicho: “No puede un árbol bueno convertirse en malo, ni un árbol malo volverse bueno”. Lo que se ha dicho es: “No puede un árbol bueno producir malos frutos”, ni lo contrario. El árbol es el mismo hombre. Los frutos son las acciones del hombre. No puede, por lo tanto, un hombre malo hacer obras buenas, ni uno bueno hacerlas malas. “Luego, si el malo quiere obrar bien, es preciso que primero se haga bueno. Mientras uno es malo, no puede hacer obras buenas. Puede suceder que lo que fue nieve no lo sea, mas no que la nieve sea caliente. Así puede suceder que el que fue malo no lo sea, pero no se podrá conseguir que el que es malo haga cosas buenas, pues, aunque alguna vez es útil, esto no lo hace él, sino que se realiza en él, haciéndolo la divina Providencia”.

3. Santo Tomás dice en la Suma Teológica (II-II, q. 10, a.4): “Los infieles carecen ciertamente de la gracia; sin embargo, permanece en ellos algún bien de la naturaleza. De donde está claro que los infieles no pueden obrar las obras buenas que proceden de la gracia, a saber, las obras meritorias. Sin embargo, pueden de alguna manera realizar las obras buenas para las que basta el bien de la naturaleza. Luego, no es menester el que pequen en todas sus acciones”. De nuevo: el infiel (árbol malo) puede hacer obras buenas (buenos frutos).

4. El Concilio Tridentino, s. 6, cn. 7, define que los actos con los que el pecador se dispone positivamente para la justificación no son pecado. Esta verdad es de fe divina y católica definida (Dz 817, can. 7): “Si alguno dijere que las obras que se hacen antes de la justificación, por cualquier razón que se hagan, son verdaderos pecados o que merecen el odio de Dios; o que cuanto con mayor vehemencia se esfuerza el hombre en prepararse para la gracia, tanto más gravemente peca, sea anatema”. Por “pecador” se entiende a la persona que se encuentra en estado de pecado mortal. Si al pecador se le aplica la analogía bíblica de los árboles y los frutos, ¿se le debe calificar como árbol bueno o como árbol malo? como árbol malo, por supuesto. ¿y esos actos que el pecador es capaz de hacer y que “no son verdaderos pecados”, ¿son frutos buenos o son frutos malos? obviamente son frutos buenos. ergo...

5. El P. Maldonado pone, en la cita publicada aquíesta postura de San Agustín en relación con Trento: “Nor is the opinion (lately condemned, with justice, by the Council of Trent) to be held, that all the works of sinners, or even of infidels, are sin, although S. Augustin himself (iv. 3, Cont. Julian., and iii. 5, Cont. Epist. duos Pelag.] and Prosper (Sentent. cvi.) seem to have held it, and some Catholic divines have defended it. They have, therefore, asserted that a good tree, in that it is good, cannot bring forth evil fruit, nor an evil tree, as it is evil, bring forth good fruit”. Traducción: “Ni es una opinión para sostenerse (condenada últimamente, con justicia, por el Concilio de Trento) que todas las obras de los pecadores, o incluso de los infieles, son pecado, aunque el propio S. Agustín (iv. 3, Cont. Julian., y iii. 5, Cont. Epist. dúos Pelag.) y Próspero (Sentent. cvi.) parecen haberla sostenido, y algunos teólogos católicos han defendido. Ellos han afirmado, entonces, que un buen árbol, en tanto que es bueno, no puede producir mal fruto, ni puede un árbol malo, en tanto que es el malo, producir buen fruto”. 

6. Finalmente, una cita lapidaria de la Suma de Teología Escolástica (bac, 1961, vol. 3, pág. 508) sobre el pasaje de los árboles y los frutos buenos y malos: “Mt 7,18: No puede árbol bueno dar malos frutos, ni árbol malo frutos buenos; es así que el pecador es árbol malo, cuyos frutos son sus obras; luego el pecador no puede realizar obras buenas. Respuesta. a) Cristo habla de los falsos profetas, cuya doctrina de suyo [cursivas nuestras] no puede dar buenos frutos. b) Devolvemos el argumento, en cuanto que de él se seguiría que el justo no puede nunca pecar, ya que es árbol bueno; lo cual es falso. c) Las palabras de Cristo contienen el modo proverbial de expresarse, el cual modo de hablar indica lo que comúnmente suele acontecer, no en cambio lo que sucede siempre”.

quarta-feira, 13 de julho de 2016

Ioannis Maldonati Commentarii in quatuor evangelistas

De árboles y frutos – Padre Maldonado S. J.

José María Hernández

El P. Juan de Maldonado (Casas de la Reina, 1534-Roma, 1583),  teólogo español, Jesuita desde 1562, fue profesor de filosofía y de teología en París y trabajó en la contrarreforma católica. Visitador de la provincia de Francia, el papa Gregorio XIII lo llamó a Roma para la revisión del texto de los Setenta. Escribió, entre otras obras, un Comentario a los cuatro Evangelios (1596-1597) y un Comentario a los principales libros del Antiguo Testamento (1643).
El P. Maldonado habla de parábola de los árboles y frutos buenos y malos en su Commentarii in quatuor Evangelistas. Se trata de una obra clásica en materia de exégesis bíblica, que contó con todas las aprobaciones exigidas por la Iglesia en una época marcada por la “Reforma” protestante y por la Contrarreforma católica. Hemos tenido a la vista una versión en inglés de esa obra: A Comentay on the Holy Gospels, 2ª. ed., Catholic Standard Library, John Hodges, London, 1888.
Ponemos acá, en español, algunos extractos más relevantes de la obra:

«Cristo llama “árbol” al hombre que tiene fe [en el sentido de conciencia, según el cual se habla de “buena fe” y de “mala fe”], sea buena o mala; buen árbol si su fe es buena, árbol malo si ésta es mala. Se puede objetar que un hombre que tiene buena fe frecuentemente da malos frutos. Esto no se puede negar; pero Cristo no habla de lo que sucede ocasionalmente, sino de lo que sucede la mayor parte de las veces, no de lo que suele pasar por la perversidad humana, sino de la naturaleza de la fe; por la fe, por su propia naturaleza, si es buena, no da malos frutos, si es mala, no da buenos frutos.»