quarta-feira, 15 de junho de 2016

Novo livro de Roberto de Mattei: convergência e divergência


C. N.

O historiador Roberto de Mattei lança novo livro: Ralliement de Léon XIII – L’échec d’un projet pastoral (O Ralliement [acordo, concerto] de Leão XIII – o fracasso de um projeto pastoral). Pois bem, com este livro temos uma convergência e uma divergência. A convergência refere-se à tese central do livro: o Railliment de Leão XIII resultou, sem dúvida, em fracasso, e foi nefasto não só para a França, mas para o conjunto do que restava de Cristandade.
Leiamos pois o que disse De Mattei numa conferência com respeito a este ponto. O tema a ser tratado hoje poderá parecer limitado à França ou circunscrito a uma época histórica. Na realidade, falar do Ralliement nos ajuda compreender numerosos problemas atuais, não somente quanto à política da França, mas também no que diz respeito à vida da Igreja”. E, se o tema central de seu livro não é a figura do Papa Leão XIII — que reinou de 1878 a 1903 — nem o seu magistério, mas sua política de governo, com acento particular no que ficou conhecido como o Ralliement, isto é, “a política de conciliação e de compromisso entre a Santa Sé e a Terceira República francesa, maçônica e laica”. O documento-base dessa política foi a encíclica Au milieu des sollicitudes, de 16 de fevereiro de 1892.
“O Ralliement em relação à Terceira República francesa pode ser considerado como projeto tanto político como pastoral. O projeto político nasce da tentativa de resolver a chamada Questão romana apoiando-se na Terceira República francesa para combater a monarquia italiana, culpada de lhe ter subtraído os Estados Pontifícios. O projeto pastoral se baseia num novo relacionamento com a modernidade. Leão XIII a combatia no plano filosófico, mas pensava que era possível reconciliar-se com ela no plano político.
O projeto de Leão XIII era convencer os católicos franceses a mudar de atitude em relação à República”. Os católicos no fim do século XIX, com efeito, “eram em sua grande maioria monarquistas, e monarquistas enquanto católicos. Seus modelos eram a França de São Luís e de Santa Joana d’Arc, onde o rei era um coadjutor de Nosso Senhor na Terra”.
Ora, “a Terceira Republica se estabeleceu na França após a queda de Napoleão III, em 1870. A partir das eleições de 1877, que levaram ao poder governos maçônicos e laicos, aprovaram-se leis que resultaram na expulsão dos jesuítas, na interdição dos sacerdotes católicos de ensinar nas escolas públicas, na abolição do ensino católico em todas as escolas, na introdução do divórcio, na obrigação do serviço militar para os clérigos. Apesar disso, Leão XIII estava convencido da possibilidade de um acordo entre a Santa Sé e a classe politica republicana. Para ele, a responsabilidade do anticlericalismo da Terceira República era dos monarquistas, que combatiam a República em nome da sua Fé católica.
“A mencionada encíclica, Au milieu des sollicitudes, não pedia aos católicos que se tornassem republicanos, mas as diretrizes da Santa Sé aos núncios e aos Bispos, provenientes do próprio Pontífice, interpretavam sua encíclica de 1892 neste sentido. Uma parte da Hierarquia católica na França atribuía à encíclica o caráter de infalibilidade. Exercia-se sobre os fiéis uma pressão sem precedentes, a ponto de fazer-lhes crer que aqueles que continuassem a sustentar a monarquia cometiam um pecado grave. Alguns fiéis foram impedidos de comungar por terem cometido ‘um pecado de monarquia’. Os católicos e os monarquistas dividiram-se em dois grupos, os ‘coligados’ e os ‘refratários’, repetindo uma situação análoga à da época da Revolução Francesa com a Constituição civil do clero, onde havia sacerdotes ‘juramentados’ e ‘refratários’”.
Pois bem, “apesar do engajamento de Leão XIII e do Cardeal Rampolla, seu secretário de Estado, o Ralliement com a Terceira República fracassou, não chegando a realizar os objetivos a que se propunha nem no plano pastoral – a cessação do anticlericalismo na França –, nem no plano politico – a recuperação dos Estados Pontifícios.
“Mas as consequências desastrosas do Ralliement aparecem em toda a sua evidência, sobretudo na França, logo após a morte de Leão XIII, ocorrida em 20 de julho de 1903. Em outubro desse mesmo ano, mais de 10 mil escolas mantidas por congregações religiosas foram fechadas. Na Sexta-feira Santa de 1904, todos os crucifixos foram retirados das escolas e dos tribunais, e no dia 7 de julho do mesmo ano a República francesa, após ter expulsado as congregações de ensino católicas, as excluiu de todo o ensino público, até aquelas que estavam autorizadas legalmente para isso. No dia 29 de julho de 1904, as relações diplomáticas entre a França e a Santa Sé foram rompidas.
“Tendo chegado o momento previsto de aplicar a lei de 11 de dezembro de 1905 sobre a separação entre a Igreja e o Estado, várias medidas anticlericais sob o governo de Clemanceau foram brutalmente aprovadas em dezembro de 1906. A Igreja na França perdeu um patrimônio de 450 milhões de francos, ou seja, um montante superior dez vezes ao orçamento anual do culto.”
E conclui o Prof. de Mattei:
“Nós podemos hoje afirmar que há um percurso desastroso de Leão XIII até os nossos dias, um percurso no qual se renuncia à tese da civilização cristã. E a hipótese da aceitação da modernidade torna-se o modelo irreversível. Entre doutrina e pastoral, entre teoria e prática deve haver íntima coerência. Esta coerência falta ao projeto pastoral de Leão XIII.”
Não temos nada que acrescentar ao dito: parece-nos perfeito. E note-se que disse De Mattei mais acima que o magistério de Leão XIII foi irretocável, ou seja, não liberal e pois assistido pelo Espírito Santo.
Por isso mesmo é que não podemos concordar com a outra conclusão de De Mattei. Antes que o expliquemos, leiam-se suas próprias palavras:
“Hoje se nos propõe uma mudança pastoral que conduz necessariamente a uma mudança doutrinária. O Bispo de Oran (Argélia), D. Jean-Paul Vesco, afirmou em uma entrevista concedida ao hebdomadário La Vie, em 11 de abril de 2016, que na Exortação Apostólica Amoris Laetitia do Papa Francisco ‘nada muda na doutrina da Igreja e, entretanto, tudo muda em relação ao mundo moderno’. É bem o projeto pastoral do Ralliement aplicado à época atual”. 

Não é verdade. O Ralliement foi, como dito pelo mesmo De Mattei, um erro de governo, um erro político, um erro prático, um erro pastoral – mas, atenção! não decorreu de um magistério liberal, e até se pode dizer que de certo modo se opôs a este. (Como vimos já em alguma postagem de nossa série Da Necessidade de Resistir ao Magistério Conciliar, o magistério da Igreja pode falhar em assuntos contingentes como o é a política prática.) Ao contrário, o “ralliement” do Papa Francisco, perfeitamente consequente ao magistério conciliar (é como que seu coroamento), decorre justamente do caráter liberal deste (vide ainda nossa série Da Necessidade de Resistir ao Magistério Conciliar). E não compreendê-lo perfeitamente é o problema que apontamos aqui quanto à obra geral de De Mattei.

 

Fonte: aqui.