quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

A todos um santo e feliz Natal / A todos una santa y feliz Navidad


La Adoración de los Pastores (Francisco de Zurbarán)



        LAS PAJAS DEL PESEBRE
    [Lope de Vega]

      Las pajas del pesebre,
       Niño de Belén,
        hoy son flores y rosas,
        mañana serán hiel.


        Lloráis entre las pajas
        del frío que tenéis,
        hermoso Niño mío,
        y del calor también.


        Dormid, Cordero santo;
        mi vida, no lloréis;
        que, si os escucha el lobo,
        vendrá por Vos, mi bien.


        Dormid entre las pajas,
        que, aunque frías las veis,
        hoy son flores y rosas,
        mañana serán hiel.


        Las que para abrigaros
        tan blandas hoy se ven
        serán mañana espinas
        en corona crüel.


        Mas no quiero deciros,
        aunque Vos lo sabéis,
        palabras de pesar
        en días de placer;


        que, aunque tan grandes deudas
        en pajas las cobréis,
        hoy son flores y rosas,
        mañana serán hiel.


        Dejad el tierno llanto,
        divino Emanüel,
        que perlas entre pajas
        se pierden sin por qué.


        No piense vuestra Madre
        que ya Jerusalén
        previene sus dolores
        y llora con José;


       que, aunque pajas no sean
       corona para rey,
       hoy son flores y rosas,
       mañana serán hiel.


quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Veni, Veni, Emmanuel

“Como é possível milagre fora da Igreja Católica”, pelo Cardeal Lépicier*


«Põe-se aqui uma grave questão: pode haver milagre fora da Igreja Católica? Nossa resposta é que se pode, em verdade, sustentar a possibilidade e até a existência de verdadeiros milagres fora da religião católica. Isso não pode dar-se por uma lei ordinária, mas somente por exceção e em casos isolados, e jamais fora do fim que distingue a verdadeira religião de Jesus Cristo. Por isso dizemos que o milagre pode dar-se fora do corpo desta religião, mas não fora de sua alma. Como fato sistemático, que constitui, por assim dizer, um sistema, um todo harmonioso governado por princípios invariáveis e por uma lei fixa, o milagre existe somente na religião que se intitula universal ou católica, porque fundada pela Causa Primeira que reuniu tudo, e em favor da qual foram operados os milagres mesmos da antiga lei.
Em verdade, pode admitir-se que, de maneira excepcional, e em casos isolados, o milagre se dê fora do corpo da religião católica, sendo livre o Espírito Santo para escolher seus instrumentos por onde quer que queira. Isso não deve constituir nenhuma dificuldade, sobretudo se o taumaturgo é um homem de vida santa e não busca outra coisa em suas obras que a honra de Deus.
Será bom, a este respeito, lembrar aqui o que lemos em São Marcos. Tendo dito a Jesus o Apóstolo João: “Mestre, vimos um homem, que não vai conosco, expulsar os demônios em vosso nome, e lho impedimos”, Nosso Senhor falou nestes termos: “Não o impeçais, pois ninguém pode fazer milagre em meu nome e logo depois falar mal de mim. Quem não é contra vós é por vós”. Isto equivale a dizer que, se algum milagre se cumpre por um homem fora do corpo da Igreja de Jesus Cristo, tal fato é necessariamente ordenado à manifestação da verdade pregada pelo Salvador, e de modo algum em favor do erro.
É neste sentido que se devem explicar os milagres atribuídos, em tempos muito próximos dos nossos, a um padre ortodoxo grego de grande piedade, chamado Ivã ou João Serguief, da principal igreja de Cronstadt. A fama de santidade deste padre era tal que, no mês de outubro de 1894, o imperador Alexandre III, morrendo, o chamou na esperança de obter por sua intercessão um alívio para seus sofrimentos.
Tais milagres, supondo-os autênticos, seriam fatos isolados, cumpridos aparentemente fora da Igreja Católica, mas lhe pertenceriam de direito, porque não tinham por objeto a confirmação de uma falsa doutrina, mas antes a recompensa de uma santidade em harmonia com os princípios proclamados precisamente pela Igreja Católica. Tais milagres teriam tido pois por fim fornecer novas provas da existência da ordem sobrenatural.
Santo Agostinho expõe luminosamente esta verdade quando, comentando precisamente o fato contado por São Marcos na passagem há pouco citada, explica que as palavras pronunciadas então por Nosso Senhor: “Quem não é contra vós é por vós”, não contradizem as referidas em São Mateus: “Quem não está comigo é contra mim”. “Nesse caso” (o daquele que expulsara o demônio), diz o santo Doutor de Hipona, “ele não era contra os discípulos, mas, ao contrário, era por eles, enquanto operava curas pelo nome de Cristo... Ele devia ser confirmado na veneração de tal nome e, portanto, não era contra Igreja, mas pela Igreja.” Lembremos ainda, aqui, o episódio tão interessante contado no livro dos Números. Dois indivíduos, Eldad e Medad, embora não tivessem ido com os outros ao tabernáculo, profetizaram todavia no campo na ausência e sem o conhecimento de Moisés. O chefe do povo de Deus, tendo-o sabido, quis que eles fossem deixados livres para profetizar.»


* * *

1) Ademais, “A generalidade dos Padres e dos teólogos admitiu a possibilidade de milagres entre os hereges”, como se lê no prestigioso DTC 

      2) Por fim, como nos escreveu um sacerdote, “o milagre da liquefação do sangue de São Genaro, que desde há 45 anos se vem produzindo no âmbito do Novus Ordo, devemos atribuí-lo agora aos demônios? Diga-se o mesmo do milagre permanente da conservação da tilma de Guadalupe. Segundo os que negam a possibilidade de milagre no âmbito da Igreja conciliar, esse tecido já deveria ter-se desfeito ‘porque Deus não pode aprovar o N.O.’. E assim com os muitos milagres permanentes na Igreja conciliar em todo o mundo” – e que de modo algum, acrescentamos, se ordenam a aprovar a Igreja conciliar no que tem de conciliar, senão que se ordenam à manifestação da verdade sobrenatural da Igreja Católica.

____
* Sobre el Card. Lépicier: 

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Até 2016

C. N.

Se não surgir nenhuma necessidade extraordinária que nos faça agir em contrário, daremos por encerradas as atividades de Estudos Tomistas em 2015 após o hangout de hoje sobre a fé. (Mas, naturalmente, a página continuará no ar.) É tempo de Natal, tempo máximo do sagrado e do familiar. Voltaremos no início de 2016.

Muito obrigado a todos por tudo (até ao adversário havemos de agradecer-lhe as objeções e a oportunidade de responder a elas), tende todos um santo e feliz Natal, e, uma vez mais, que se nos permita recomendar uma postagem de nossa página A Boa Música: Corelli - Concerto Grosso op. 6, n°8 - 'Feito para a Noite de Natal'. Uma delicada beleza barroca.

     Vide ainda: Balanço de nosso trabalho em 2015, e projetos para 2016 (incluindo novo curso franco: Refutação das Principais Doutrinas Antiaristotélicas)

Quinto hangout de Questões Teológicas: A Fé - V (21/12, às 21 horas)


sábado, 19 de dezembro de 2015

Balanço de nosso trabalho em 2015, e projetos para 2016 (incluindo novo curso franco: Refutação das Principais Doutrinas Antiaristotélicas)


C. N.

I

Para nosso trabalho em prol do tomismo (vide a Apresentação de Estudos Tomistas), 2015 foi um ano muito favorável.
1. Antes de tudo, pudemos publicar, pela editora Concreta, nossa tradução e nosso estudo introdutório do Compêndio de Teologia de Santo Tomás de Aquino. Reputamos esta tradução a melhor que já alcançamos até agora, efeito provável da maturidade.
2. Depois, demos prosseguimento a nossos cursos on-line não francos: Por uma Filosofia Tomista; A Existência de Deus e a Criação do Mundo – segundo Santo Tomás de Aquino; Para Bem Escrever na Língua Portuguesa, o primeiro do quais fundamental para nossos fins.
3. Graças à aposta de Edson Filho, dono da É Realizações, em agosto saiu por esta editora a nossa Suma Gramatical da Língua Portuguesa (que se encontra neste link com substancial desconto). Em suas volumosas páginas, busca-se fazer que a Gramática seja de fato normativa, mas ao mesmo tempo se funde em definições e em classificações corretas e, mais que isso, mostre as luzes da Lógica e da Metafísica que a esclarecem. – E, para nossa surpresa, em menos de seis meses esta Suma já marcha para o quarto final de sua grande tiragem, e na Amazon por vezes alcança o primeiro lugar entre as gramáticas mais vendidas.
4. Ademais, pudemos incrementar grandemente a página Estudos Tomistas com textos próprios.
5. E, finalmente, demos início a dois cursos francos, que só terminarão em alguma altura de 2016: A Ordem das Disciplinas – segundo Santo Tomás de Aquino e Questões Teológicas.

II

Se se confirmarem as possibilidades que agora divisamos, 2016 ser-nos-á um ano ainda mais favorável que 2015.
1. Em fevereiro, a Filocalia (editora nova, vinculada à É Realizações) publicará os dois primeiros livros da coleção Grandes Comentadores, ambos de Fílon de Alexandria, o primeiro teólogo a valer-se da filosofia como de uma serva: Da Criação do Mundo e Outros Escritos e Questões sobre o Gênesis. Com esta coleção, a Filocalia vem preencher uma grave lacuna no panorama editorial brasileiro: a que diz respeito aos grandes comentadores, em língua grega e em língua latina, da Bíblia, de Platão e de Aristóteles. As obras da coleção, coordenada por nós, nunca foram publicadas em nosso idioma. São dos seguintes comentadores: Alexandre de Afrodísias, Amônio de Hérmias, Boécio, Fílon de Alexandria, Proclo, Santo Agostinho, Santo Tomás de Aquino e Simplício. Os livros da coleção Grandes Comentadores terão estudo introdutório substancioso, de nossa autoria na maior parte dos casos.
2. Em meados do ano, publicar-se-á pela mesma coleção um comentário de Santo Agostinho à Escritura, e no fim do ano um de Santo Tomás de Aquino a Aristóteles. Este contará com estudo introdutório, nosso, de cerca de cem páginas.
3. Cremos que nos será possível publicar, em 2016, cinco novos livros nossos.
a. Em janeiro ou fevereiro, pelas Edições Santo Tomás, Estudos Tomistas – Opúsculos (filosóficos e teológicos).
b. Em abril ou maio, A Arte de Traduzir (título provisório); ainda sem editora.
c. Em julho ou agosto, pela É Realizações, Das Artes do Belo: Essência e Fim (título provisório).
d. Em alguma altura do segundo semestre, um Comentário às Categorias de Aristóteles e um Comentário à Isagoge de Porfírio; ambos ainda sem editora.
Observação. Note-se que, excetuados os Opúsculos e Das Artes do Belo, a ordem de publicação de nossos livros (incluída a Suma Gramatical) segue a ordem das disciplinas segundo o explanado em nosso curso de mesmo nome (cf. aqui). E assim prosseguiremos enquanto Deus nos der saúde e tempo de vida para tal.  
e. E, finalmente, assim que terminar o curso A Ordem das Disciplinas – segundo Santo Tomás de Aquino, daremos início a outro, também franco: Refutação das Principais Doutrinas Antiaristotélicas, não raro mediante o recurso de sua redução ao absurdo. Entre as doutrinas que se refutarão, estão: a estoica, a neoplatônica (embora esta não seja exatamente antiaristotélica), a de Duns Scot, a de Guilherme de Ockham, a de Descartes, a de Locke, a de Malebranche, a de Hume, a de Rousseau, a de Kant, a de Hegel, a de Darwin, a de Marx, a de Freud, a de Husserl, além da de vários outros modernos.
Observação. Antes de começarmos a refutá-las, daremos um panorama da filosofia anterior a Aristóteles, e uma suma da mesma filosofia aristotélica, com sua necessária complementação corretiva por Santo Tomás de Aquino.    

Muito obrigado por tudo, tende todos um santo e feliz Natal, e que se nos permita recomendar uma postagem de nossa página A Boa Música: Corelli - Concerto Grosso op. 6, n°8 - 'Feito para a Noite de Natal'.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

A ordem compositiva e a pedagógica da Lógica

C. N.

     1) Antes de mais, a Lógica ocupa-se dos atos das duas operações da razão enquanto intelecto (a simples apreensão ou inteligência dos incomplexos, e a composição intelectual), estudados respectivamente nas Categorias ou Predicamentos (com o acréscimo, posterior, do porfiriano Isagoge ou Tratado dos Predicáveis) e no Perihermeneias do Estagirita;
 2) depois, ocupa-se dos atos da operação da razão enquanto razão (ou seja, os atos em que se vai do conhecido ao desconhecido), os quais por sua vez também se subdividem:
• em discurso sempre verdadeiro (ou seja, sua parte judicativa e resolutiva ou analítica), o qual depende tanto da figura do silogismo – tratada nos Primeiros Analíticos – como das relações de necessidade dos conceitos, na demonstração – tratada nos Segundos Analíticos;
• em discurso provável ou parte inventiva, que, com gradação de maior para menor certeza, se subdivide ainda em a) dialética [ou seja, a fé (não a teologal) e a opinião], b) suspeita de verdade e c) indução por sentimento, estudadas respectivamente nos Tópicos, na Retórica e na Poética;
• e, por fim, em discurso falso com aparência de verdade, tratado nas Refutações Sofísticas.
Observem-se duas coisas importantes:
1) o ordo compositionis obriga a considerar as três operações da razão, como acima, em sua ordem própria;
2) pareceria que a ordem pedagógica acima exposta estivesse invertida, porque o homem de fato só pouco a pouco se aproxima da ciência, ou seja, vai do falso ao apodíctico passando pelo verossímil; sucede porém que o ordo sustentationis e pois a ordem pedagógica não podem senão ir, ao contrário, do perfeito ou necessário ao imperfeito e ao falso.[1] 




[1] Com efeito, não se poderia precisar, por exemplo, se um argumento é mais ou menos verossímil se não se soubesse qual é o argumento verdadeiro, que sempre será a régua ou regra com que se mede aquele. 

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

A calúnia é uma brisa sutil, mas ribomba como tiro de canhão


PADRE CURZIO NITOGLIA
18 de outubro de 2014

[Tradução: Gederson Falcometa]

[Nota prévia. Como se verá, permitimo-nos fazer uma nota de esclarecimento ao artigo do Padre Nitoglia.]


“O homem faz o mal totalmente, perfeitamente
e felizmente apenas quando o faz por motivos
‘místico-religiosos’ ou messiânicos.”
Blaise Pascal


A doutrina tomista

Santo Tomás de Aquino trata na Suma Teológica (II-II, q. 72-75) as injustiças que se cumprem com palavras, depois de ter examinado as que se cumprem com ações (q. 64). Aquelas são as injúrias verbais, a detração, a murmuração e a derrisão. Infelizmente estes vícios são muito difusos, pouco levados a sério e quase nunca combatidos mesmo em ambientes católicos ligados à Tradição, enquanto constituem em si pecado mortal. Busquemos ver sua natureza, sua gravidade, e quais são os remédios para derrotá-los.

As injúrias verbais

Na questão 72 o Aquinate trata da “contumélia”, ou seja, a injúria verbal não feita pelas costas ou “traiçoeiramente”, mas abertamente. “Contumélia” deriva do verbo latino contemmere, isto é, desprezar ou insultar clamorosamente e em face. É distinta da injúria, que é uma ação que afeta o direito dos outros (in-jus) com ações: espancamento, etc. Ora, o Angélico nota que, embora as palavra não façam fisicamente mal (a. 1, ad 1), enquanto todavia as palavras significam coisas, podem causar muitos danos. A contumélia ou injúria verbal afeta a honra; a difamação ou detração afeta a boa fama; e a derrisão ou escárnio suprime o respeito.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Palestras de Carlos Nougué sobre o tomismo na UFBA


Palestras sobre o tomismo de Carlos Nougué na UFBA, em 5 de dezembro de 2015, no Circuito dos Clássicos.


Na primeira gravação a pilha do gravador acabou com 1h17min na parte da redução ao absurdo da doutrina de Freud. Uns 15 a 30min talvez tenham sido perdidos.
A segunda gravação, da aula das 13h, está completa.
Caso queiram fazer download, vão com o botão direito no link e peçam que salve o destino na máquina. Mesmo com tradução de .wav para .mp3 ficaram arquivos pesados, porque a qualidade do áudio está fina.

Aula 5 de A Ordem das Disciplinas - A Arte de Traduzir

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

“Se os maus podem fazer milagres” (Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica, II-II, q. 178, a. 2)


«Quanto ao segundo, assim se procede. Parece que os maus não podem fazer milagres.

1. Com efeito, os milagres obtêm-se pela oração. Ora, a oração do pecador não merece ser ouvida, como se diz no Evangelho de João (9, 31): “Nós sabemos que Deus não ouve os pecadores”, e no livro dos Provérbios (28, 9): “De quem desvia seus ouvidos para não ouvir a Lei, até a oração será execrável”. Logo, parece que os maus não podem fazer milagres.
2. Ademais, os milagres atribuem-se à fé, segundo o de Mateus 17, 19: “Se tiverdes fé como um grão de mostarda direis a este monte: Transporta-te daqui para lá, e ele transportar-se-á”. Ora, “a fé sem obras é morta”, diz a Epístola de Tiago (2, 20); assim, ela não parece ter operação própria. Por conseguinte, parece que os maus, que não praticam boas obras, não podem fazer milagres.
3. Ademais, os milagres são testemunhos divinos, pois se lê na Epístola aos Hebreus (2, 4): “comprovando Deus seu testemunho por meio de sinais e maravilhas e vários milagres” . Por isso, na Igreja alguns são canonizados pelo testemunho dos milagres. Ora, Deus não pode ser testemunha do erro. Parece, portanto, que os maus não podem fazer milagres.
4. Ademais, os bons estão mais unidos a Deus que os maus. Ora, nem todos os bons fazem milagres. Logo, muito menos os maus.

Mas, em sentido contrário, diz o Apóstolo na primeira Epístola aos Coríntios (13, 2): “Ainda que eu tivesse toda a fé, a ponto de transportar montanhas, se não tiver caridade, não sou nada”. Ora, todo aquele que não tem caridade é mau; “É este só dom do Espírito Santo o que distingue os filhos do Reino dos filhos da perdição”, diz Agostinho em XV de Trin. Parece, portanto, que até os maus podem fazer milagres.

RESPONDO. Deve dizer-se que, entre os milagres, há os que não são verdadeiros, mas [meros] fatos fantásticos, que enganam o homem fazendo-o ver o que não é. Outros são fatos reais, ainda que não mereçam verdadeiramente o nome de milagres, pois que são produzidos por certas causas naturais. E estas duas categorias de milagres podem ser feitas pelos demônios. Mas os verdadeiros milagres não podem ser feitos senão pela virtude divina, pois Deus os produz para utilidade do homem. E isto de dois modos. Primeiro, para confirmar a verdade sagrada. Segundo, para manifestar a santidade de alguém, que Deus quer propor como exemplo de santidade. Ora, no primeiro caso, os milagres podem ser feitos por todos os que pregam a verdadeira fé e invocam o nome de Cristo, o que, às vezes, pode ser feito pelos próprios maus. Por isso, a respeito das palavras de Mateus (7, 22): “acaso não profetizamos em teu nome?”, etc., diz Jerônimo: “Profetizar ou fazer milagres e expulsar demônios às vezes não vem do mérito de quem o faz, senão que é a invocação do nome de Cristo o que o faz para que os homens honrem a Deus, por cuja invocação se fazem tantos milagres”. No segundo caso, só se fazem milagres pelos santos, para manifestação de sua santidade, já durante sua vida já depois de sua morte, tanto por eles mesmos como mediante outros. Assim, lemos nos Atos dos Apóstolos: “Deus fazia milagres pela mão de Paulo; de tal modo que, até quando se aplicavam aos enfermos os lençóis que tinham tocado seu corpo, saíam deles as doenças” (19, 11-12). E, desse modo, nada impede que algum pecador faça milagres por invocação de algum santo. Mas tais milagres não deverão atribuir-se ao pecador, mas àquele cuja santidade Deus pretende manifestar por meio deles.

1. À primeira objeção, portanto, deve dizer-se, ao tratar a oração de súplica, que se ela é atendida não o é por causa do mérito de quem a faz, mas da misericórdia divina, que se estende até aos maus. Por isso, às vezes Deus ouve também a oração dos pecadores. A esse respeito, diz Agostinho em super Ioan.: “O cego pronunciou aquelas palavras antes de ser ungido”, isto é, antes de ter sido perfeitamente iluminado, “pois Deus ouve os pecadores”. – O que diz o livro dos Provérbios, a saber, “a oração do que não ouve a lei é execrável”, é preciso entendê-lo como referente ao mérito do pecador. No entanto, essa oração às vezes alcança a misericórdia de Deus, quer para a salvação daquele que ora, como aconteceu com o publicano de que fala Lucas, quer ainda para a salvação dos outros e para glória de Deus.
2. À segunda deve dizer-se que a fé sem as obras é morta, quando aquele que crê não vive por ela a vida da graça. Mas nada impede que um vivo opere por um instrumento morto, assim como um homem que age por meio de um bastão. E é assim que Deus utiliza como de um instrumento a fé do pecador.
3. À terceira deve dizer-se que os milagres são sempre verdadeiros testemunhos daquilo que confirmam. Por isso, os maus que ensinam falsas doutrinas não poderiam jamais fazer verdadeiros milagres para confirmar seu ensinamento, embora, às vezes, possam fazê-los em nome de Cristo, que eles invocam, e pela virtude dos sacramentos que administram. Mas aqueles que anunciam doutrinas verdadeiras fazem às vezes verdadeiros milagres, para confirmá-las, mas não para atestar sua santidade. Por isso, diz Agostinho no livro Octoginta trium Quaest.: “Há grande diferença entre os milagres dos magos, os dos bons cristãos e os dos maus cristãos: os magos fazem-nos por pactos particulares com os demônios; os bons cristãos, em virtude da justiça pública; os maus cristãos, por sinais desta justiça”.
4. À quarta deve dizer-se o que diz Agostinho no mesmo lugar: “Não se concede a todos os santos fazer milagres, para que os fracos não caiam no erro perniciosíssimo de pensar que em tais fatos haja dons maiores do que nas obras de justiça, que se ordenam à vida eterna”.» 

Observação de C. N. Está suposto neste artigo de Santo Tomás que somente ao magistério da Igreja (quando cingido, propriamente ou analogamente, das quatro condições vaticanas) se reserva a infalibilidade quanto ao caráter de todo e qualquer milagre. – Ademais, no artigo de Santo Tomás maus está antes por pecadores” em geral do que por heréticos em particular (embora estes também se incluam: os maus que ensinam falsas doutrinas...)Mas nos dias atuais grassa a heresia como nunca antes, além de os sacramentos pós-conciliares suscitarem dúvidas graves. Especialmente nestes dias, por conseguinte, havemos de armar-nos da mais fina prudência diante de fatos ou eventos aparentemente miraculosos. De ordinário havemos de calar-nos. 

A eloquência de Carlos Lacerda


C. N.

Como digo na Suma Gramatical da Língua Portuguesa, maior formalidade à língua falada não lha dá a Gramática ou arte da escrita, mas a Eloquência, em ordem à Retórica. E um dos princípios da Eloquência é o pronunciar os fonemas de dada língua de maneira a mais marcante para o ouvido, e de maneira a mais distintiva. Assim, por exemplo, importa usar preferentemente o erre vibrante alveolar múltiplo (o dos gaúchos), e não reduzir a u o ele de fim de sílaba (“mal” e não “mau”, justamente porque mal é advérbio e mau é adjetivo; mas também “algum” e não “augum”). É o que tento fazer em meus cursos on-line ou presenciais e em minhas palestras. Não o inventei eu, obviamente; ouvi-o e aprendi-o na infância e na adolescência até de cantores populares cariocas, mas muito especialmente de professores, e ainda de políticos como Carlos Lacerda (1914-1977), também carioca. Este parlamentar e estadista, de dignidade e de elevação praticamente inexistentes entre os políticos atuais – ainda que não se possa assentir a algumas de suas posições, o que é assunto para outro lugar –, este parlamentar e estadista era, ademais, um exemplo de rétor, de orador. Escutai-o pelos links abaixo, e fazei uma ideia da enormidade do que se perdeu neste país, em termos de cultura, ao cabo de parcos cinquenta anos.