quarta-feira, 1 de julho de 2015

Se Deus sofre por nossos pecados; etc. (em resposta a perguntas de aluno do curso A Existência de Deus e a Criação do Mundo – segundo Santo Tomás de Aquino)


RESPOSTAS DO PROFESSOR NO CORPO DO E-MAIL DO ALUNO

Tenho algumas questões sobre a aula 8 que tocam na teologia sagrada; se puder responder ficarei grato.
I- Li em certo articulista católico que Deus sofre por causa de nossos pecados a razão disso, porque o mal como privação qualificada de ser fere a essência divina. Diz ainda o articulista que com relação a união hipostática os modernistas negam que a natureza divina sofreu, mas na verdade o verbo divino sofreu para realizar a redenção. Como coadunar estas questões já que em Deus não ha potência passiva?


RESPOSTA. Esse articulista católico está enganado. Deus não sofre por nossos pecados. Sofrer é um acidente; mas, como visto, em Deus não há acidentes. Logo... Desdobre-se porém a resposta.
a) O mal não é algo, mas privação de algum bem. Ora, como já vimos, os entes não são extensão de Deus – o que implicaria o panteísmo –, senão que ele é absolutamente transcendente a todas as criaturas. Logo, nenhum pecado, que é um mal, pode afetar a essência, ou melhor, a substância de Deus.
b) O Verbo de Deus, ou Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, não sofreu de modo algum; a parte de Cristo que sofreu foi sua carne e sua alma humanas – e não sofreu senão voluntariamente, porque para a eficácia e credibilidade da missão redentora de Cristo era necessário que ele assumisse os defeitos (ou deficiências, ou carências) que nos são inseparáveis. Mas após a ressurreição não padecem sequer a carne e a alma humanas de Cristo, porque, se ao Cristo antes da ressurreição convinha, como visto, padecer voluntariamente, o Cristo ressurrecto, no entanto, é o exemplo, o modelo, o paradigma dos homens ressurrectos – e estes, aderidos já perfeitamente a Deus, já tampouco podem padecer nenhum mal. (Outro assunto, e muitíssimo mais complexo, é o do Cristo padecente em cada consagração eucarística.)  
c) Se o que é ferido quanto ao homem é sua reta ordem a Deus, o ferido com respeito a Deus é a glória extrínseca que lhe devemos nós, nada intrínseco seu.
e) Desse modo, portanto, não se escapa ao fato de que em Deus não há potência passiva nem pois acidentes. Engana-se, pois, o referido articulista. 
f) Mas atenção: não se caia daí no extremo oposto, ou seja, em que se poderia portanto pecar desde que se cresse na redenção de Cristo, desde que se tivesse fé. Porque, com efeito, ferir a reta ordem a Deus, desviar-se dele, deixar pelo pecado de prestar o louvor e a glória que lhe devemos como criaturas suas constitui justamente o pecado mortal; e, como se sabe, um só pecado mortal não confessado e não perdoado é suficiente para conduzir à danação eterna.
e) Ademais e por fim, que Deus não sofra nada, que o pecado não redunde em padecimento real em Deus, não implica negar a justeza de imagens como o Sagrado Coração que sangra por nossos pecados: estamos no campo legítimo da analogia de proporcionalidade imprópria ou metáfora. Ora, especialmente o Antigo Testamento é repleto de metáforas: a ira, o braço ou o arrependimento de Deus – com o que se quer expressar ou a justiça de Deus, ou seu poder de operar, etc. Não só, com efeito, o hagiógrafo – mero instrumento da escrita de Deus mesmo – usa licitamente e proveitosamente tais metáforas, mas o sentido figurado, como mostra Santo Tomás (na Suma Teológica, I, q. 1., a. 10, ad 3), encontra-se incluído no próprio sentido literal. Se assim é, a imagem do Sagrado Coração que sangra pela ofensa do pecado expressa, justamente, que este ofende a reta ordem a Deus mediante Cristo e a glória que lhe devemos sempre – e não se esqueça que Deus não nos criou senão para que lhe prestássemos glória a ele, ao contrário do que pretende o humanismo, a saber, que Deus se teria glorificado a si mesmo pela criação do homem. Mas isto implicaria imperfeição em Deus: porque, com efeito, o Perfeito não necessita de nada, nem de glória; ele é a própria glória. Como dito, a glória que lhe devemos é extrínseca, assim como, se é real a relação das criaturas a Deus – por sua dependência deste quanto ao ser –, não há todavia relação real de Deus às criaturas – pela diferença de natureza entre ele e estas. Mas nada disto implica que não lha devamos, e que possamos não prestar-lha desviando-nos pelo pecado da reta ordem a ele mediante Cristo; é como dar as costas à sua misericórdia. Por conseguinte, pecar mortalmente é como ferir o Sagrado Coração e implica, repita-se, danação eterna.

II)-Segundo alguns físicos teóricos a viagem no tempo é possível teoricamente e será possível tão logo haja tecnologia suficiente. Então o ser humano poderia em tese mudar o passado. Na possibilidade de tal fato seria possível a Deus tal alteração do passado?

RESPOSTA. Vimos em alguma aula que Deus pode tudo, ou seja, tudo o que é possível, e que apenas o impossível não está a seu alcance, justamente por impossível. Ora, se segundo a natureza é impossível que um morto ressuscite, não é impossível ao autor da mesma natureza ressuscitar um morto. É impossível todavia que esse morto não tenha morrido, porque o que é passado, passado é, e inalterável. Afirmar o contrário é infringir o princípio da contradição, da mesma maneira como o seria se se afirmasse que a Terra pode girar para a direita e para a esquerda ao mesmo tempo. Mas tudo o que infringe o princípio da contradição é impossível. Logo, nem Deus nem, muito menos, nenhum homem pode fazer que o passado não tenha sido. – Se assim é, tais “físicos teóricos” não fazem ciência de modo algum, mas ficção científica, como a feita por Hawking e por congêneres com “o mundo que se faz a si mesmo do nada”, com “o universo dentro de uma casca de noz”, etc.
Observação. Como dito no curso Por uma Filosofia Tomista, há duas físicas. Uma é a Física Geral, de que são partes subjetivas a Cosmologia, a Química, a Biologia, etc. Esta, a Física Geral, ou seja, a aristotélica, tem por sujeito o ente móvel. A outra física é ciência média, já prevista por S. Tomás: é em parte física, em parte matemática. Logo, não há isto de “física teórica”. Ou se trata, repita-se, da Física Geral, ou se trata da referida ciência média. Insista-se porém em que a alteração do passado, o surgimento do mundo por si do nada, o mundo dentro de uma casca de noz e outras coisas que tais não são ciência no sentido da Física Geral nem no da ciência média. Nem sequer são abortivos de ciência. São pura ficção científica fantasiada de ciência.