segunda-feira, 7 de abril de 2014

Outro sofisma dos atuais milenaristas


C. N.

Dizem pouco mais ou menos os atuais milenaristas que o decreto do Santo Ofício que proibiu o ensino do milenarismo mitigado era um decreto tão somente disciplinar e não doutrinal, razão por que podem não segui-lo.
Pois bem, indubitavelmente, para que tem olhos mínimos de ver, o referido decreto vale como disciplinar justamente porque se funda em doutrina. Que doutrina? A doutrina de que “o sistema do milenarismo mitigado não pode ser ensinado com segurança” (com respeito à fé). Mais ainda: trata-se de decreto assinado por Pio XII enquanto pastor e doutor de todos os cristãos, e que exigia acatamento e sustentação pela Igreja universal da doutrina ali exposta. Ou seja, já não bastasse tratar-se de uma determinação do Santo Ofício, que como órgão autêntico do magistério participava da autoridade deste de maneira habitual e própria, este decreto cumpria as quatro condições vaticanas para a infalibilidade. Se assim não for, quer dizer, se um decreto disciplinar não se fundar em doutrina infalível ou ao menos certa, nunca terá validade; será pura e simplesmente nulo, como o são, por exemplo, todos os decretos disciplinares do magistério conciliar.
Demos dialeticamente, porém, ainda que absolutamente sem conceder, que tal decreto fosse pura e simplesmente disciplinar. Se assim fosse, das duas uma: ou os milenaristas atuais haveriam de dizer que nunca teve validade, ou haveriam de dizer que, conquanto tivesse validade, poderia enquanto disciplinar ser ab-rogado. Ora, pelo que se pode depreender de suas obscuras palavras, eles pendem para a segunda hipótese. Sendo assim, pergunte-se-lhes: se era ab-rogável, quem o ab-rogou? Outro Papa? Não, senão que o fazem os próprios milenaristas em nome, talvez, da crise atual da Igreja. Mas isto não é senão infringir a regra segura, assinalada por São Vicente de Lérins em Communitorium, de que é sobretudo em épocas de crise de fé que devemos agarrar-nos à tradição e ao magistério anterior sem tirar-lhe nem acrescentar-lhe um iota – precisamente porque então não temos um magistério que seja uma segura regra próxima da fé.
Em outras palavras, os milenaristas atuais são mais um triste exemplo de uma tendência que grassa mesmo entre a oposição católica ao liberal-modernismo: a tendência a pontificar em lugar do magistério pontifical. E nisto não fazem senão igualar-se ao mesmo e herético magistério conciliar.


Otro sofisma de los actuales milenaristas


C. N.

Dicen poco más o menos los actuales milenaristas que el decreto del Santo Oficio que prohibió la enseñanza del milenarismo mitigado era un decreto tan solo disciplinar y no doctrinal, por lo que pueden no seguirlo.
Ahora bien, indudablemente, para quienes tienen ojos para ver, el mencionado decreto vale como disciplinar justamente porque se funda en una doctrina. ¿Qué doctrina? La doctrina de que “el sistema del milenarismo mitigado no puede enseñarse con seguridad” (respecto a la fe). Más todavía: se trata de un decreto firmado por Pío XII en cuanto pastor y doctor de todos los cristianos, y que exigía que la Iglesia universal acatara y sustentara la doctrina allí expuesta. O sea, como si ya no bastara con tratarse de una determinación del Santo Oficio, que como órgano auténtico del magisterio participaba de la autoridad de este de manera habitual y propia, este decreto cumplía con las cuatro condiciones vaticanas para la infalibilidad. Si no es así, o sea, si un decreto disciplinar no se funda en una doctrina infalible o al menos cierta, nunca tendrá validad; será pura y simplemente nulo, como lo son, por ejemplo, todos los decretos disciplinares del magisterio conciliar.
Aceptemos dialécticamente, sin embargo, aunque en absoluto sin concederlo, que tal decreto fuera pura y simplemente disciplinar. Si así fuera, una de dos: o los milenaristas actuales habrían de decir que nunca tuvo validad, o habrían de decir que, aunque tuviera validad, hubiera podido, en cuanto disciplinar, ser abrogado. Pero, por lo que se puede desprender de sus oscuras palabras, ellos se inclinan por la segunda hipótesis. Si es así, pregúnteseles: si era abrogable, quién lo abrogó? Otro Papa? No, sino que lo hacen los mismos milenaristas en nombre, quizá, de la crisis actual de la Iglesia. Pero esto no es sino infringir la regla segura, que San Vicente de Lérins señala en su Communitorium, de que es sobre todo en épocas de crisis de fe que debemos agarrarnos a la tradición y al magisterio anterior sin quitarle ni agregarle ni un iota – precisamente porque entonces ya no tenemos un magisterio que sea una segura regla próxima de la fe.
En otras palabras, los milenaristas actuales son otro triste ejemplo de una tendencia que se difunde incluso entre la oposición católica al liberal-modernismo: la tendencia a pontificar en lugar del magisterio pontifical. Y en esto no hacen sino igualarse al mismo y herético magisterio conciliar. 


sábado, 5 de abril de 2014

São Paulo e “a dupla ressurreição corpórea”


(1935)

Rev. Pe. Bernard-Marie ALLO, O.P. (1873-1945)

Nosso comentário indicou as razões múltiplas que impedem de admitir neste capítulo XV [da Primeira Epístola aos Coríntios] a ideia de uma “dupla ressurreição” dos corpos. Mas, como essa teoria foi posta muito em voga em nossos dias, convém examiná-la mais de perto.
A interpretação do capítulo XX, 1-10, do Apocalipse mediante um Reino de mil anos tomado à letra, com Cristo visível regendo a terra de Seu trono, em meio aos mártires ressuscitados, possui ainda o favor da maioria dos exegetas heterodoxos. Contudo, aqueles dentre eles aos quais não basta repeti-la como uma lição de seu “catecismo científico” não ignoram as graves dificuldades que ela apresenta. Por mais que uma tal concepção seja análoga à de certos apócrifos judeus, e pareça confirmada pelo quiliasmo de alguns antigos Padres, ela está em discordância manifesta com as profecias do Senhor nos Sinóticos, segundo as quais a Parusia, sobrevindo de forma inesperada, colocará um ponto final a toda a história terrestre; ela nem mesmo pode apoiar-se em Daniel. Assim, Zahn quererá considerá-la uma revelação nova e particularíssima concedida a São João; o católico Wikenhauser, ao defendê-la como sentido literal, se esforçará por explicar que é apenas uma espécie de alegoria, para significar que os mártires terão situação privilegiada no mundo futuro. Mas aqueles que não têm de fazer apologética, por exemplo Loisy, reconhecem sem rodeios que o milenarismo literal aparece como um elemento estranho ao conjunto do Novo Testamento, e permanece inconciliável com muitas afirmações do próprio Apocalipse; logo, só poderá ser um espécime daquele conflito entre tradições heterogêneas, segundo o sistema deles, que se encontram generosa e pouco inteligentemente justapostas num mesmo livro. Entretanto, não se parou nesta solução desesperada; há algum tempo começou-se a insistir em certos traços, bastante obscuros, da escatologia de São Paulo, na qual se pretende descobrir ao menos o princípio da crença quiliasta. Teríamos assim, na revelação cristã, duas perspectivas escatológicas em conflito: uma, geral e isenta de quiliasmo, que é a dos Sinóticos e culmina na Segunda Epístola de Pedro; outra, milenarista, tomada de empréstimo a círculos judeus da mesma época, que se mescla à primeira em Paulo e desabrocha-se no Apocalipse, Papias, Justino, Ireneu e ainda outros.
Dentre os exegetas do século XIX, Ewald (1857) e Edwards (1885) eram já favoráveis às “duas ressurreições” no Apóstolo. Godet (“Comentário à 1.ª Epístola aos Coríntios”, II, pp. 374.379) defende mui honestamente essa teoria, e chega mesmo a pensar encontrá-la no restante do Novo Testamento. Toussaint, em seu comentário católico à nossa epístola (p. 415, 1910), pendia bem visivelmente para a mesma tese. Para Loisy não restam dúvidas. Por fim, Albert Schweitzer, em seu notável livro sobre “A Mística do Apóstolo Paulo” (1930), infelizmente falseado por sua tese escatologista, que faz com que ele restrinja tudo o que São Paulo diz da união com Cristo ao intervalo de um “reino messiânico intermediário”, pretende (pp. 94-96. al.) que uma ressurreição antecipada dos justos precederá a ressurreição geral, para que os fiéis que estavam mortos desfrutem também dos bens messiânicos na companhia da última geração dos vivos, “transformados” quando da Parusia; Paulo teria sido o primeiro a encontrar essa solução, estranha a Jesus, ao adaptar ao espiritualismo cristão a escatologia de IV Esdras e do Apocalipse de Baruque.
Nunca se teria pensado, para começar, em descobrir semelhante teoria nas epístolas paulinas, se não tivesse havido que encontrar a qualquer preço um paralelo ou antecedente neotestamentário para o pretenso milenarismo de João; e o presente estudo visa mostrar à custa de que condescendências violentas e de que recusa de análise chegou-se a tanto.
Caso se quisesse começar colocando um intervalo, como vários fazem, entre a ressurreição dos justos e a dos réprobos, seria necessário esquecer ou desviar de seu sentido passagens como Rom. II, 5-seguintes, que contempla tão somente um único dia do “juízo” para uns como para os outros; olvidar que o “Dia do Senhor”, ou Parusia, coincidirá com a ruína dos ímpios (I Tess. V, 2.seguintes): textos claros, que nenhum outro contradiz e que todos, pelo contrário, manifestam confirmar.
Mas a passagem de Paulo que está em causa essencialmente é I Coríntios, XV, 22-26; para dela fazer exegese suficiente, devemos recorrer a um paralelo bem próximo, I Cor. XV, 50-55, e a outro mais afastado, I Tessalonicenses IV, 13-18.
Digamos, antes de tudo, por que é que consideramos essa comparação entre I Cor. e I Tess. legítima e necessária. Embora um intervalo de cinco anos separe talvez essas duas epístolas, nada autoriza a pensar que as ideias de Paulo quanto aos novíssimos tenham variado durante esse tempo. Se ele tivesse tido que retificar algum ensinamento outrora proposto por ele a seus fiéis — e isso sobre um tema tão capital na sua pregação como eram os fins últimos —, os seus escritos nos teriam conservado disto algum sinal, ao menos em forma de alusão. Mas toda indicação, toda alusão dessa espécie estão ausentes.
Ele bem poderia tê-lo feito, dir-se-á, na sua pregação oral. Ninguém negará isso. Mas apenas em desespero de causa é que se poderia refugiar-se nessa incógnita, e somente se o conjunto das cartas de Paulo, que são quantidades conhecidas, apresentasse incoerências ou contradições inexplicáveis de outro modo. Tal não se dá no caso, em que as cartas, esclarecendo-se uma por outra, mostram — ou pelo menos não excluem — a continuidade da ideia e a coerência dos pontos de vista.
Estando isto bem compreendido, consideremos a famosa passagem em que São Paulo supostamente teria preludiado o quiliasmo. Ela se encontra na Iª aos Coríntios, cap. XV, vv. 22-56.

El pacto con la serpiente


El pacto con la serpiente:
Actualidad de la antigua gnosis
y sus perversiones modernas
El poeta y satanista Charles Baudelaire

Massimo Borghesi

La Serpiente, el tentador, se presenta como libertador, como quien ensalza al hombre más allá del bien y del mal, más allá de la “ley”, más allá del Dios antiguo, enemigo de la libertad. Los últimos doscientos años descubren de nuevo el principio liberador del mundo afirmado por la secta de los ofitas, principio entrevisto por la concepción sabbatista de su Mesías entregado a las serpientes: el Cristo-serpiente. Entregarse al demonio, en una singular transposición gnóstica de la idea según la cual perderse es encontrarse, es abrirse a Dios. En este “sagrado” connubio Satanás y Dios se unen en el hombre. Es “la identidad de De Sade y los místicos” deseada por Georges Bataille. El camino hacia abajo coincide con el camino hacia arriba. Ahora el Adversario es cómplice, “parte” de Dios. Es el camino para devenir dios. El escalofrío de la nada, de la bajada a los Infiernos, acompañada al descubrimiento del Ser, de Abraxas, el pleroma sin rostro que permanece, inmóvil, en el devenir del mundo.

Los ofitas: la serpiente como libertadora

Hace más de dos siglos que la cultura occidental acaricia el mal, lo adula, lo justifica. Lo negativo da vértigo, delirio de omnipotencia, emociones inconfesables; ilumina con resplandores rojizos las sendas prohibidas, los abismos de la noche, las cimas heladas. Da su color al peculiar titanismo moderno, el reto provocador que éste lanza al Eterno. Si el Fausto antiguo, el de Christopher Marlowe, se arrepiente en trance de muerte, el Fausto posterior vive del ultraje, anhela la disolución. El pacto con la serpiente, como titula Mario Praz uno de sus últimos libros [1], se convierte en un pacto estable. La Serpiente, el tentador, se presenta como libertador; como aquel que ensalza al hombre más allá del bien y del mal, más allá de la “ley”, más allá del Dios antiguo, enemigo de la libertad. Los últimos doscientos años descubren de nuevo “el principio liberador del mundo (afirmado) por la secta de los ofitas” [2], principio entrevisto, según Gershom Scholem, por la concepción sabbatista con su Mesías entregado a las “serpientes”. [3] Principio reafirmado por Ernst Bloch en su libro Ateísmo en el cristianismo, donde el Cristo-Serpiente libra al mundo de la tiranía de Yahvé [4].
También Goethe, según Vittorio Mathieu, “había oído hablar de la secta de los ofitas” [5]. En Goethe y su diablo custodio Mathieu observa que en el Fausto Mefistófeles es la “fuerza que hace surgir de la tiniebla lo positivo del hombre” [6]. Como afirma Dios, dirigiéndose a Mefistófeles en el Prólogo en el Cielo, “sólo tienes que mostrarte, libremente, por lo que eres; no he odiado nunca a tus semejantes; de todos los espíritus que niegan, el burlón es el que menos me molesta. La actividad del hombre se relaja demasiado fácilmente y el hombre se abandonaría con placer en un descanso absoluto. Por eso me gusta poner a su lado un compañero que lo estimule, y actúe, y debe, como el Diablo, crear” [7]. Dios pone de buena gana (“gern”) al Diablo como colaborador del hombre. Como señalaba Mircea Eliade, se podría hablar de una simpatía orgánica entre el Creador y Mefistófeles. [8] Goethe hace de Mefistófeles, del mal, el muelle que mueve hacia la acción (“Tat”), hacia lo que es positivo. Se trata de esa idea, que va a tener mucho éxito, según la cual el camino hacia el Cielo pasa por el infierno. El hombre se hace hombre, vivo, inteligente, libre, sólo saboreando a fondo lo amargo de la vida. La inocencia del “alma buena” es, por lo contrario, inercia, parálisis, muerte.

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Intentio cordis (em português)


Intentio Cordis
São Bento

C. N. 

Escreve São Bento no Capítulo 52 (“Do Oratório do Mosteiro”) de sua Regra: Sed et si aliter vult sibi forte secretius orare, simpliciter intret et oret, non in clamosa voce, sed in lacrimis et intentione cordis (“Mas, se porventura também outro [monge] quiser rezar em silêncio, simplesmente entre e reze, não com voz clamorosa, mas com lágrimas e intentio cordis”). Propositadamente deixamos esta última expressão sem traduzir, porque, embora seja comum traduzi-la por “pureza do coração”, e embora efetivamente esta tradução não seja de todo ruim, o fato é que a expressão não tem equivalente preciso em outras línguas, dada sobretudo a dificuldade de encontrar neste contexto versão perfeita para intentio. Vejamos brevemente por quê.
Dentre os muitos significados do termo intentio, cinjamo-nos aqui aos que mais de perto têm que ver com a passagem da Regra de São Bento e o assunto deste artigo:
1) ação de esticar, tensão;
2) aplicação, atenção, dedicação, esforço (intentio cogitationum, esforço ou tensão do espírito; intentio operis, dedicação ao trabalho; Sêneca: si mihi accomodaveris subtilitatem et intentionem tuam, se teu espírito penetrante me prestar atenção);
3) tendência a um fim ou desígnio (Plínio: Hæc intentio tua, ut..., Estes [teus esforços] tendem a...);
4) intensidade, grau (Sêneca: Summi dolori intentio, O grau sumo [ou o paroxismo] da dor);
(Os outros significados são sempre técnicos: ou jurídico, ou lógico [em Quintiliano significa “a premissa maior do silogismo”], ou médico.)
Pois bem, a nosso ver, em intentio cordis o termo amalgama todos os significados precedentes, além do de pureza. Com efeito, esclarece Cassiano:[1] “Quando a mente estiver fundada em tal tranquilidade e libertada dos liames de todas as paixões carnais e aderir de forma tenacíssima ao Sumo Bem, aí está a ‘intentio cordis’. Por meio dessa pureza, de certo modo, é absorvido o sentido da mente e reformado de sua situação terrena à semelhança espiritual e angélica; o que quer que receba em si, no ocupar-se ou no fazer algo estará realizando puríssima e sinceríssima oração. É assim cumprida a palavra do Apóstolo: ‘sine intermissione orate’, ‘orai sem cessar’ (I Tess., V, 17)”.
Ora, ninguém está mais aderido ao Sumo Bem que os bem-aventurados (anjos ou homens) ao contemplar a Deus face a face. Ao contrário do que dizia Duns Scot, e como dizia Santo Tomás de Aquino, a vontade daquele que vê a essência de Deus já não pode pecar nem sequer venialmente: está submersa na perfeita beatitude ou felicidade que é o seu Fim Último. Está como que em seu elemento: “respira-o”.
Então, no estado de contemplação de Deus face a face, já não será necessária a Fé. Mas para nós, os que ainda peregrinamos nesta terra de exílio, a Fé não só é necessária para o atingimento daquela perfeita beatitude, mas é essa mesma perfeita beatitude já incoada, já iniciada na vida atual. Por isso, pode dizer-se, quanto maior for a Fé, mais incoada estará na vida atual a perfeita beatitude e, portanto, mais a mente e o coração estarão fundados em grandíssima tranquilidade, porque mais libertos estarão dos liames das paixões carnais e mais tenazmente estarão aderidos ao Sumo Bem. Logo, mais capazes serão essa mente e esse coração feridos pelo pecado original, mas efetivamente purificados e limpos pela Graça, de prestar a glória devida a Deus.
Intentio cordis é, pois, essa pureza de uma mente e de um coração aplicados, tendentes e aderidos em alto grau a Deus e grandissimamente libertos das impurezas da soberba e do amor-próprio, porque “mais precioso que o mais fino ouro é o meu fruto, meu produto tem mais valor que a mais fina prata” (Prov. VIII, 19). E não é senão com intentio cordis que podemos cumprir o mandado do Apóstolo de orar sem cessar, porque com intentio cordis oraremos purissimamente no que quer que estejamos fazendo: rezando no oratório beneditino, dando aula, arando o campo, entalhando a madeira, lavando a louça, comendo, cantando ou corrigindo amorosamente o filho querido (“Bate no teu filho com a vara e livrarás a sua alma da morte”, Prov., XXIII, 14). E orar assim incessantemente, com intentio cordis, em qualquer de nossas atividades, faz parte propriamente do santificar-se. Mas que distância entre esta afirmação e a de que nos santificamos fazendo bem (quase) qualquer ofício do mundo ou a de que agrada a Deus o fazer naturalmente bem, por exemplo, uma obra de arte!
A primeira, uma variante muitíssimo difundida do humanismo e do liberalismo “católicos”,[2] incorre em flagrante desvio da sã doutrina. Com efeito, se de santificação se trata, será decorrente da Graça e das virtudes teologais infusas (Fé, Esperança e Caridade), ou não o será. Não se pode pensar em santificação sem o motor primeiro do sobrenatural, porque a santificação é já um produto sobrenatural e se ordena ao Sobrenatural. Pretender que nos santificamos fazendo bem (quase) qualquer ofício do mundo é afirmar, eo ipso, que o natural é capaz por si do sobrenatural. É incorrer, propriamente, numa sorte de heresia pelagiana com odor de calvinismo. Naturalmente, os modernos defensores desse modo de pensar perfeitamente anticatólico não dizem que nos santificamos fazendo bem qualquer ofício do mundo, mas quase qualquer ofício, porque se assim não fosse seriam obrigados a reconhecer, por exemplo, que “o mais antigo ofício do mundo” é motor de santificação... Não, seu erro não reside aí. Reside precisamente em crer que gerir bem um banco, digitar bem o que dita o patrão ou varrer bem uma casa é por si capaz de santificar, independentemente de ter-se ou não a referida intentio cordis. Trata-se de uma espécie de sobrenaturalização do fazer natural, tão larga, que é capaz de incluir na subida da escada de Jacó até a não católicos e a pecadores mortais. Mas é óbvio que se trata de uma falsidade, porque o que santifica é ser movido pela Graça a ter uma intentio cordis tal, que se seja capaz até de deixar de fazer os ofícios do mundo para servir a Deus, de renunciar até aos mais lícitos prazeres do mundo para viver para Deus, de dar a própria vida para tornar-se mártir de Deus. “E eis que o anjo do Senhor gritou do céu, dizendo: Abraão, Abraão. E ele respondeu: Aqui estou. E (o anjo) disse-lhe: Não estendas a tua mão sobre o menino, e não lhe faças mal algum; agora conheci que temes a Deus, e não perdoaste a teu filho único por amor de mim. Abraão levantou os olhos, e viu atrás de si um carneiro preso pelos chifres entre os espinhos, e, pegando nele, ofereceu-o em holocausto em lugar de seu filho. E chamou àquele lugar o Senhor ‘Providência’” (Gên., XXII, 11-14). Não, Abraão não se santificou por pastorear bem seus rebanhos, mas por oferecer ao Senhor não só seu pastorear, mas toda a sua vida, a ponto de por amor e obediência a ele ser capaz de sacrificar o próprio filho amado. E foi Santo entre os santos o Descendente de Abraão, de Isaac, de Jacó e de Judá não por ter sido bom carpinteiro, mas por ter morrido de morte na Cruz como vítima propiciatória e satisfatória da glória ofendida do Pai, e em obediência absoluta e perfeita a ele. Isto é ter intentio cordis. Obviamente, também é ter intentio cordis oferecermos nosso trabalho a Deus, o que implica tentar fazê-lo bem; mas, também obviamente, não deixaremos de ter intentio cordis se, conquanto oferecendo perfeitamente a Deus até o mais estafante dos trabalhos e tentando fazê-lo bem, não pudermos por qualquer razão acidental fazê-lo bem. O inferno só não está cheio, podemos parafrasear a Chesterton, de “malfazedores”. Ademais − e isto é tão fundamental que merece tratamento à parte –, nem todos os ofícios considerados honestos pelo mundo o são aos olhos de Deus. Será bom aos olhos de Deus gerir bem um banco se por tal gestão muitos perdem casas e bens em razão de hipotecas impagáveis? Será bom aos olhos de Deus ser contador de uma fábrica de quaisquer coisas indecorosas? Será bom aos olhos de Deus um médico praticar um aborto legal? Veja-se que não se fala aqui de algo impossível; obviamente, os católicos que vivem no mundo de hoje, tão universalmente apóstata e tão universalmente abjeto, só muito raramente temos condições mais perfeitas de escapar a seus tentáculos. Como ter, então, neste mundo a referida e requerida intentio cordis? Antes de tudo, tentando até o último de nossos dias livrar-nos, da melhor maneira possível, de tais tentáculos, tendo sempre na mente e no coração que devemos vigiar sem interrupção, porque nossos inimigos – o demônio, a carne e o mundo − andam ao nosso redor, como um leão que ruge, procurando a quem devorar (cf. I Ped., V, 8). Depois, enquanto ou se não conseguirmos absolutamente livrar-nos deles, pedindo permanente perdão a Deus pelo que somos obrigados a fazer, como aquele violinista católico que, na Alemanha do século XIX, tocava na orquestra de costas para o público a fim de não ser tomado pela vaidade tão própria dos artistas daqueles tempos românticos, demasiado românticos... Mas, por fim, como no caso do médico com respeito a um aborto legal e como em tantos e tantos outros casos, renunciando se preciso for, em nome de Deus, ao nosso próprio ganha-pão e ofício, e entregando-nos totalmente em suas mãos: ou seja, sujeitando-nos ao suave jugo de Cristo com a certeza de que são bem-aventurados os que sofrem perseguição por amor da justiça − justiça de Deus −, porque deles é o reino dos céus (cf. Mat., V, 10).
Ademais, como diz Cassiano e pressupunha São Bento em sua Regra, a intentio cordis implica a aceitação amorosa “do que quer que se receba em si”; implica o amor à cruz. Não disse Cristo que, “se algum quiser vir empós de mim, negue-se a si mesmo, e tome a sua cruz, e siga-me” (Mat., XVI, 24), e que “Eu sou o caminho, a verdade e a vida, e ninguém vai ao Pai senão por Mim” (Jo., XIV, 6)?
Há porém algo mais, e que esquecem tantos os defensores da tese da santificação pelo bem-fazer os ofícios do mundo quanto os defensores do ser do agrado de Deus o bem-fazer naturalmente, por exemplo, uma obra de arte:[3] pela intentio cordis, “é absorvido o sentido da mente e reformado de sua situação terrena à semelhança espiritual e angélica” (Cassiano, ibid.); ou seja, o sentido da mente de quem tem a intentio cordis está ordenado ao Fim Último, a Deus, à semelhança possível dos anjos glorificados e dos homens bem-aventurados, estes hoje como almas separadas do corpo e amanhã como unidades restauradas de alma e corpo gloriosos. A intentio cordis pressupõe uma reforma do homem antigo, um renascer em Cristo, conforme ao qual todos os fins terrenos se ordenem, como meios, ao Fim Último. Pressupõe, portanto, que o humano natural se subordine e ordene ao sobrenatural da Graça, e que devemos, como dizia São Paulo, possuir as coisas deste mundo como se não as possuíssemos, desfrutá-las como se não as desfrutássemos, e, como podemos consequentemente concluir, fazê-las sempre absolutamente em ordem ao Fim Último. O efetivamente subordinado deve ordenar-se essencialmente ao subordinante. Agrada a Deus o bem cozinhar um prato demasiado requintado? Para sabê-lo, basta ler as espécies de gula que enumera São Gregório Magno no livro XXX, C. 18, n. 60, de seus Livros Morais: “præpopere laute nimis ardenter studiose”, ou seja, “fora de tempo, com ostentação, com excesso, com voracidade, com excessivo esmero”.[4] Agrada a Deus o esculpir uma estátua de perfeito nu sensual? Agrada a Deus o compor uma complexa e musicalmente perfeita sinfonia que exacerbe as paixões do ouvinte? Agrada a Deus o descrever perfeitamente numa peça teatral quão baixo pode descer o homem em sua vileza sem mostrá-lo como condenável e sem apresentar o contraponto da Penitência e da Esperança cristãs? Agrada a Deus o filmar e exibir um beijo ardente ou adúltero? Agrada a Deus escrever os mais perfeitos versos em honra de Satã? Como lhe poderiam agradar se tal estátua, tal sinfonia, tal peça teatral, tal filme e tais versos, por mais artisticamente perfeitos que sejam, são em si mesmos pecaminosos e tendem a levar o próximo a pecar de algum modo?
Como diz Santo Tomás na Suma Teológica (I, q. 1, a. 6, corpus), “entre as ciências práticas, a mais excelente é a que está ordenada a um fim mais alto, como acontece com a política [ou arte civil] com respeito à arte militar: pois o bem do exército está ordenado ao bem da cidade [e assim como acontece com a política com relação à arte musical, como o demonstram Platão na República e o Filósofo na Política]. Ora, o fim desta doutrina [a Sacra Teologia], enquanto prática, é a bem-aventurança eterna, à qual se ordenam todos os outros fins das ciências práticas [ou seja, da política, da arte militar, da arte musical, da arte arquitetônica, etc.]. Portanto, é claro que por qualquer ângulo a ciência sagrada é a mais excelente”. Pergunta-se: o fim da arte musical de um Wagner, o fim da arte teatral de um Nelson Rodrigues, o fim da arte arquitetônica de um Niemayer se ordenam à bem-aventurança eterna, ou antes “desordenam” a ela? Mas então qualquer obra de arte que não seja estritamente católica não tem nenhuma importância e é nefasta para a vida do católico? Não, porque, por exemplo, algumas formas de arte greco-romanas eram, digamos, “batizáveis”, pois Deus mesmo, mediante sua Providência, preparara a cultura greco-romana como carne apta para receber o espírito do cristianismo; ou também porque algumas obras de arte, como muitos quadros de Rembrandt, são como que continuidades culturais ou últimos suspiros católicos em ambientes já não católicos; ou ainda, por fim, porque certas obras, mesmo sem ser estritamente católicas, não contradizem porém a ordem ao Fim último do homem, senão que até contribuem de alguma maneira para tal (por exemplo, e como diria Johann Sebastian Bach, recreando a alma dentro de justos limites). Sem dúvida alguma, porém, a melhor arte é a resultante dos que têm não só grande talento mas verdadeira intentio cordis, ou dos que, também dotados de grande talento, ao menos seguem os cânones daqueles: a arte de São Gregório Magno, a de Palestrina, a de Anton Bruckner, grandíssima parte da de Arvo Pärt, parte da de Bach; a arte de Michelino da Besozzo, a de Gentile da Fabriano, a de Fra Angelico, a de Francisco de Zurbarán, a de Augusto Ferrer-Dalmau; a arte de Lorenzo Ghiberti, a de Aleijadinho, parte da de Michelangelo; a arte dos anônimos arquitetos góticos, a de João de Castilho, a de Fernando de Casas Novoa; a arte de Gil Vicente, a de Chesterton, boa parte da de Lope de Vega; parte da arte de Robert Bresson, parte da de Andrei Tarkovski; etc.
Sim, porque para tudo numa vida ordenada a Deus com intentio cordis vale o que diz São Tiago (I, 22): “Sede realizadores da palavra e não apenas ouvintes”. E ter intentio cordis, fazer tudo com intentio cordis, é adquirir como Hieroteu a sabedoria divina não apenas estudando-a, mas padecendo-a até no menor ato da vida.[5]

Igreja da Ordem Terceira de São Francisco da Penitência,
Rio de Janeiro, Brasil
__________________
[1] Em Coll. 9, 6, apud A Regra de São Bento, trad. e notas D. João Evangelista Enout, O.S.B., 3a. ed., Rio de Janeiro, Edições Lumen Christi, 2008, pp. 185.
[2] Só se pode entender a existência de um liberalismo ou de um humanismo “católicos”, como diz o Padre Álvaro Calderón em Prometeo o La religión del hombre, ao modo degenerativo de um câncer.
[3] Os que creem ser do agrado de Deus o mero bem fazer naturalmente, por exemplo, uma obra de arte não necessariamente se consideram, eles mesmos, liberais; mas com esta tese caminham perigosamente à beira do precipício do humanismo.
[4] PL 76, 556-557, apud Santo Tomás de Aquino, De Malo, q. 14, a. 3.
[5] Cf. Pseudo-Dionísio, De Divinis Nominibus, apud Santo Tomás, Suma Teológica, I, q. 1, a. 6, ad 3: “Hierotheus doctus est non solum discens, sed et patiens divina”.

Intentio cordis (en español)


Intentio Cordis


San Benito


Escribe San Benito en el Capítulo 52 (“Del oratorio del monasterio”) de su Regla: Sed et si aliter vult sibi forte secretius orare, simpliciter intret et oret, non in clamosa voce, sed in lacrimis et intentione cordis (“Y, si en otro momento quiere orar secretamente, entre él solo y ore; no en voz alta, sino con lágrimas e intentio cordis”). Hemos dejado a propósito esta última expresión sin traducir, porque, si bien es común traducirla por “pureza de corazón”, y, si bien efectivamente esta traducción no es del todo mala, el hecho es que la expresión no tiene equivalente exacto en otras lenguas, dada sobre todo la dificultad de encontrar en este contexto una traducción perfecta para intentio. Veamos brevemente por qué.
Entre los muchos significados del término intentio, nos ceñimos aquí a los que más tienen que ver con el pasaje de la Regla de San Benito y el tema de este artículo:
1) acción de estirar, tensión;
2) aplicación, atención, dedicación, esfuerzo (intentio cogitationum, esfuerzo o tensión del espíritu; intentio operis, dedicación al trabajo; Séneca: si mihi accomodaveris subtilitatem et intentionem tuam, si tu espíritu penetrante me presta atención);
3) tendencia a un fin o designio (Plinio: Hæc intentio tua, ut..., Esos [tus esfuerzos] tienden a...);
4) intensidad, grado (Séneca: Summi dolori intentio, El grado sumo [o el paroxismo] del dolor);
(Los otros significados son siempre técnicos: o jurídico, o lógico [en Quintiliano significa “la premisa mayor del silogismo”], o médico.)
Ahora bien, a nuestro entender, en intentio cordis el término amalgama todos los significados precedentes, incluso el de pureza. En efecto, aclara Casiano:[1] “Cuando la mente está fundada en la tranquilidad y libre de las ataduras de todas las pasiones carnales y adhiere de forma tenacísima al Sumo Bien, ahí está la ‘intentio cordis’. Por medio de esta pureza, de cierto modo, es absorbido el sentido de la mente y reformado de su situación terrena a semejanza espiritual y angélica; lo que quiera que sea que reciba en sí, al ocuparse o al hacer algo estará realizando purísima y sincerísima oración. Así se cumple la palabra del Apóstol: ‘sine intermissione orate’, ‘orad sin cesar’ (I Tes., V, 17)”.
Ahora bien, nadie está más adherido al Sumo Bien que los bienaventurados (ángeles u hombres) al contemplar a Dios cara a cara. Al contrario de lo que decía Duns Scot, y como lo decía Santo Tomás de Aquino, la voluntad de aquel que ve la esencia de Dios ya no puede pecar ni siquiera venialmente: está sumergida en la perfecta beatitud o felicidad que es su Fin Último. Está como en su elemento: “lo respira”.
Entonces, en el estado de contemplación de Dios cara a cara, ya no es necesaria la Fe. Pero para nosotros, los que todavía peregrinamos en esta tierra de exilio, la Fe no solamente es necesaria para alcanzar la perfecta beatitud, sino que es la misma perfecta beatitud ya incoada, ya iniciada en la vida actual. Por ello, se puede decir que, cuanto mayor sea la Fe, más incoada estará en la vida actual la perfecta beatitud y, por tanto, más la mente y el corazón estarán fundados en grandísima tranquilidad, porque estarán más libres de las ataduras de todas las pasiones carnales y más tenazmente estarán adheridos al Sumo Bien. Luego, más capaces serán esa mente y ese corazón heridos por el pecado original, más efectivamente purificados y limpios por la Gracia, de prestarle a Dios la debida gloria.
Intentio cordis es, pues, tal pureza de una mente y un corazón aplicados, tendientes y adheridos en alto grado a Dios y grandísimamente libres de las impurezas de la soberbia, el amor propio y las pasiones carnales, porque “mi fruto es mejor que el oro más puro, y mis productos son mejores que la plata escogida” (Prov. VIII, 19). Y no es sino con esta intentio cordis que podemos cumplir el mandato del Apóstol de orar sin cesar, porque con esta intentio cordis oraremos purísimamente en lo que quiera que estemos haciendo: rezando en el oratorio benedictino, dando clase, arando en el campo, tallando la madera, lavando los platos, cantando o corrigiendo amorosamente a un hijo querido (“Si lo castigas con la vara, librarás a su alma del scheol”, Prov., XXIII, 14). Y orar así incesantemente, con intentio cordis, en cualquiera de nuestras actividades, forma parte propiamente de la santificación. Pero ¡qué distancia entre esta afirmación y la de que nos santificamos haciendo bien (casi) cualquier oficio del mundo o la de que agrada a Dios hacer naturalmente bien, por ejemplo, una obra de arte!
La primera, una variante muy difundida del humanismo y el liberalismo “católicos”,[2] incurre en fragante desvío de la sana doctrina. En efecto, si de santificación se trata, derivará de la Gracia y de las virtudes teologales infusas (Fe, Esperanza y Caridad), o no lo será. No se puede pensar en santificación sin el motor primero de lo sobrenatural porque la santificación es ya un producto sobrenatural y se ordena a lo Sobrenatural. Pretender que nos santificamos haciendo bien (casi) cualquier oficio del mundo es afirmar, eo ipso, que lo natural es capaz por sí mismo de lo sobrenatural. Es incurrir, propiamente, en una suerte de herejía pelagiana con olor a calvinismo. Desde luego, los modernos defensores de este modo de pensar perfectamente anticatólico no dicen que nos santifiquemos haciendo bien cualquier oficio del mundo, sino casi cualquier oficio, porque, si no fuera así, estaríamos obligados a reconocer, por ejemplo, que “el más antiguo oficio del mundo” es motor de santificación... No, su error no reside ahí. Reside precisamente en creer que administrar bien un banco, digitar bien lo que dicta el patrón o barrer bien la casa es por sí mismo capaz de santificar, independientemente de que se tenga o no la referida intentio cordis. Se trata de una especia de sobrenaturalización del hacer natural, tan amplia, que es capaz de incluir en la subida de la escalera de Jacó hasta a no católicos y pecadores mortales. Pero es obvio que se trata de una falsedad, porque lo que santifica es ser movido por la Gracia a tener una intentio cordis tal, que seamos capaces incluso de dejar de hacer los oficios del  mundo para servir a Dios, o renunciar incluso a los más lícitos placeres del mundo para vivir para Dios, o dar su propia vida para convertirse en mártir de Dios. “He aqui que el Ángel de Yahvé le llamó desde el cielo, diciendo: “¡Abrahán, Abrahán! Él respondió: ‘Heme aquí.’ Dijo entonces (el Ángel): ‘No extiendas tu mano contra el niño, ni le hagas nada; pues ahora conozco que eres temeroso de Dios, ya que no has rehusado darme tu hijo, tu único.’ Y alzó Abrahán los ojos y miró, y vio detrás de sí un carnero, enredado por los cuernos en un zarzal. Fue Abrahán y tomó el carneiro, y lo ofreció en holocausto en lugar de su hijo. Y dio Abrahán a aquel lugar el nombre de ‘Yahvé ve’” (Gén., XXII, 11-14). No, Abrahán no se santificó por pastorear bien sus rebaños, sino por ofrecer al Señor no solo su pastoreo, sino toda su vida, a tal punto que por amor y obediencia a Él fue capaz de sacrificar a su propio hijo amado. Y fue Santo entre los Santos el Descendiente de Abrahán, de Isaac, de Jacob y de Judá no por haber sido carpintero, sino por haber muerto de muerte en la Cruz como víctima propiciatoria y satisfactoria de la gloria ofendida del Padre, y en obediencia absoluta y perfecta a Él. Esto es tener intentio cordis. Obviamente, también es tener intentio cordis ofrecer nuestro trabajo a Dios, lo que implica intentar hacerlo bien; pero, también obviamente, no dejaremos de tener intentio cordis si, por más que ofrezcamos a Dios hasta el más agotador de los trabajos e intentemos hacerlo bien, no podemos por cualquier razón accidental hacerlo bien. Parafraseando a Chesterton, el infierno solamente no está lleno de “malhacedores”. Además –y esto es tan fundamental que merece un tratamiento aparte–, ni todos los oficios que el mundo considera honestos lo son a los ojos de Dios.  ¿Será bueno a los ojos de Dios administrar bien un banco si, mediante tal gestión, muchos pierden sus casas y bienes en razón de hipotecas impagables? ¿Será bueno a los ojos de Dios ser contador de una fábrica de cualquier cosa indecorosa?  ¿Será bueno a los ojos de Dios que un médico practique un aborto legal? Nótese que no se habla aquí de algo imposible; desde luego, los católicos que viven en el mundo de hoy, tan universalmente apóstata y tan universalmente abyecto, solo muy raramente están en condiciones perfectas de escapar a sus tentáculos. ¿Cómo tener, entonces, en este mundo la referida y requerida intentio cordis? Ante todo, intentando hasta el último de nuestros días librarnos, de la mejor manera posible, de tales tentáculos, teniendo siempre en la mente y en el corazón que debemos vigilar sin interrupción, porque nuestros enemigos –el mundo, el demonio y la carne− andan a nuestro alrededor, como un león rugiente, procurando a quien devorar (cfr. I Ped., V, 8). Después, mientras o si no conseguimos librarnos totalmente de ellos, pidiendo permanente perdón a Dios por lo que estamos obligados a hacer, como aquel violinista católico que, en la Alemania del siglo XIX, tocaba en la orquesta de espaldas al público a fin de que no lo tomara la vanidad tan propia de los artistas de aquellos tiempos románticos, demasiado románticos... Pero, finalmente, como en el caso del médico con respecto a un aborto legal y como en tantos y tantos otros casos, renunciando si es necesario, en nombre de Dios, a nuestro propio sustento y oficio, y entregándonos totalmente en Sus manos: o sea, sujetándonos al suave jugo de Cristo con la seguridad de que son bienaventurados los que sufren persecución por amor a la justicia –justicia de Dios−, porque de ellos es el reino de los cielos (cfr. Mat., V, 10).
Además, como dice Casiano y presuponía San Benito en su Regla, la intentio cordis implica la aceptación amorosa “de lo que quiere que se reciba en sí”; implica el amor a la cruz. ¿No dijo Cristo que, “si alguno quiere venir en pos de mí, niéguese a sí mismo, tome su cruz y sígame” (Mat., XVI, 24), y que “Yo soy el camino, la verdad y la vida, y ninguno va al Padre sino por Mí” (Juan, XIV, 6)?
Hay sin embargo algo más, y que olvidan tanto los defensores de la tesis de la santificación por el bien hacer los oficios del mundo como los defensores del ser del agrado de Dios el bien hacer naturalmente, por ejemplo, una obra de arte:[3] por la intentio cordis, “es absorbido el sentido de la mente y reformado de su situación terrena a semejanza espiritual y angélica” (Casiano, ibid.); o sea, el sentido de la mente de quien tiene la intentio cordis está ordenado al Fin Último, a Dios, a semejanza de los ángeles glorificados y los hombres bienaventurados, estos hoy como almas separadas del cuerpo y mañana como unidades restauradas de alma y cuerpo gloriosos. La intentio cordis presupone una reforma del  hombre antiguo, un renacer en Cristo, conforme al cual todos los fines terrenos se ordenen, como medios, al Fin Último. Presupone, por tanto, que lo humano natural se subordine y ordene a lo sobrenatural de la Gracia, que debemos, como decía San Pablo, poseer las cosas de este mundo como si no las poseyéramos, disfrutarlas como si no las disfrutáramos, y, como podemos en consecuencia concluir, hacerlas siempre absolutamente en orden al Fin Último. Lo efectivamente subordinado debe ordenarse esencialmente a lo subordinante. ¿Le agrada a Dios que se cocine bien un plato demasiado refinado? Para saberlo, basta leer las especies de gula que enumera San Gregorio Magno en el libro XXX, C. 18, n. 60, de sus Morales: “præpopere laute nimis ardenter studiose”, o sea, “fuera de hora, con ostentación, con exceso, con voracidad, con excesivo esmero”.[4] ¿Le agrada a Dios el que se esculpa una estatua de un perfecto desnudo sensual? ¿Le agrada a Dios el que se componga una compleja y musicalmente perfecta sinfonía que exacerbe las pasiones del oyente? ¿Le agrada a Dios el que se describa perfectamente en una pieza teatral cuán bajo puede descender el hombre en vileza sin mostrarlo como condenable y sin presentar el contrapunto de la Penitencia y la Esperanza cristianas? ¿Le agrada a Deus el que se filme y exhiba un beso ardiente o adúltero? ¿Le agrada a Dios el que se escriban los más perfectos versos en honor de Satanás? ¿Cómo podrían agradarle si dicha estatua, dicha sinfonía, dicha pieza teatral, dicha película y dichos versos, por artísticamente perfectos que sean, son por sí mismos pecaminosos y tienden a llevar al prójimo a pecar de algún modo?
Como dice Santo Tomás en la Suma Teológica (I, q. 1, a. 6, corpus), “entre las ciencias prácticas, la más excelente es la que está ordenada a un fin más alto, como ocurre con la política [o arte civil] respecto al arte militar: pues el bien del ejército está ordenado al bien de la ciudad [y así como ocurre con la política respecto al arte musical, como lo demuestran Platón en la República y el Filósofo en la Política]. Ahora bien, el fin de esta doctrina [la teología], en cuanto práctica, es la bienaventuranza eterna, a la cual se ordenan todos los otros fines de las ciencias prácticas [o sea, de la política, el arte militar, el arte musical, el arte arquitectónico, etc.]. Por tanto, claro está que por cualquier ángulo la ciencia sagrada es la más excelente”. Se pregunta: el fin de la ciencia musical de un Wagner, el fin de la ciencia teatral de un Nelson Rodrigues, el fin de la ciencia arquitectónica de un Niemayer se ordenan a la bienaventuranza eterna, o más bien “desordenan” respecto a ella? Pero, entonces, ¿cualquier obra de arte que no sea estrictamente católica no tiene ninguna importancia y es nefasta para la vida del católico? No, porque, por ejemplo, algunas formas de arte greco-romanas eran, digamos, “bautizables”, pues Dios mismo, mediante su Providencia, había preparado a la cultura greco-romana como carne apta para recibir el espíritu del cristianismo; o también porque algunas obras de arte, como muchos cuadros de Rembrandt, son como continuidades culturales o los últimos suspiros católicos en ambientes ya no católicos. Pero sin duda alguna el mejor arte es el resultante de los que tienen no solamente un gran talento, sino una verdadera intentio cordis, o de los que, también dotados de gran talento, al menos siguen los cánones de aquellos: el arte de San Gregorio Magno, el de Palestrina, el de Anton Bruckner, una grandísima parte del de Arvo Pärt, una parte del de Bach; el arte de Michelino da Besozzo, el de Gentile da Fabriano, el de Fra Angelico, el de Francisco de Zurbarán, el de Augusto Ferrer-Dalmau; el arte de Lorenzo Ghiberti, el de Aleijadinho, una parte del de Miguel Ángelo; el arte de los anónimos arquitectos góticos, el de João de Castilho, el de Fernando de Casas Novoa; el arte de Gil Vicente, el de Chesterton, una parte considerable del de Lope de Vega; una parte del arte de Robert Bresson, una parte del de Andrei Tarkovski; etc.
Sí, porque respecto a todo en la vida ordenada a Dios con intentio cordis vale lo que dice  Santiago (I, 22): “Haceos ejecutores de la palabra, y no oidores solamente”. Y tener intentio cordis, hacerlo todo con intentio cordis, es adquirir como Hieroteo la sabiduría divina no solo estudiándola, sino padeciéndola incluso en el menor acto de la vida.[5]

Iglesia de la Orden Tercera de San Francisco de la Penitencia,
Río de Janeiro, Brasil



[1] En Coll. 9, 6, apud A Regra de São Bento, trad. y notas D. Juan Evangelista Enout, O.S.B., 3a. ed., Río de Janeiro, Ediciones Lumen Christi, 2008, pp. 185.
[2] No se puede entender la existencia de un liberalismo o de un humanismo “católicos”, como dice el Padre Álvaro Calderón en La religión del hombre, al modo degenerativo de un cáncer.
[3] Los que creen ser del agrado de Dios el mero bien hacer naturalmente, por ejemplo, una obra de arte, no necesariamente son liberales; pero con esta tesis caminan peligrosamente al borde del precipicio del humanismo.
[4] PL 76, 556-557, apud Santo Tomás de Aquino, De Malo, q. 14, a. 3.
[5] Cfr. Pseudo-Dionísio, De Divinis Nominibus, apud Santo Tomás, Suma Teológica, I, q. 1, a. 6, ad 3: “Hierotheus doctus est non solum discens, sed et patiens divina”.

Músicae sacrae (en español)


CARTA ENCÍCLICA

MUSICAE SACRAE

DE NUESTRO SANTÍSIMO SEÑOR

PÍO

POR LA DIVINA PROVIDENCIA

PAPA XII

     A LOS VENERABLES HERMANOS PATRIARCAS, PRIMADOS, ARZOBISPOS, OBISPOS Y DEMÁS ORDINARIOS LOCALES

     EN PAZ Y COMUNIÓN CON LA SEDE APOSTÓLICA

SOBRE LA MÚSICA SAGRADA
     
     VENERABLES HERMANOS SALUD Y BENDICIÓN APOSTÓLICA

     Siempre hemos tenido en gran estima la disciplina de la música sagrada y por eso Nos ha parecido oportuno, por medio de esta Carta encíclica, tratar ordenadamente esta materia, exponiendo al mismo tiempo con mayor amplitud algunas cuestiones suscitadas y discutidas en los últimos decenios, para que este tan noble y tan hermoso arte ayude continuamente al mayor esplendor del culto divino y fomente más eficazmente la vida espiritual de los fieles.
Al mismo tiempo hemos querido responder a los deseos que no pocos de vosotros, Venerables Hermanos, con prudencia Nos habíais expuesto y que hasta insignes maestros de esta disciplina liberal y preclaros cultivadores de la música sagrada también han formulado en Congresos celebrados sobre tal materia, y, finalmente, atender a lo que sugieren las experiencias de la vida pastoral y los progresos de la ciencia y de los estudios sobre dicho arte. Esperamos así que las normas sabiamente promulgadas por San Pío X en aquel documento que él mismo llamó con razón «código jurídico de la música sagrada» [1] queden de nuevo confirmadas e inculcadas, reciban nueva luz y se corroboren con nuevos razonamientos; y así, al adaptarse el arte ilustre de la música sagrada a la circunstancias actuales, y aun en cierto modo enriquecerse, se hallará en condiciones de responder cada vez mejor a su fin tan elevado.

I. MÚSICA, DON DE DIOS