quarta-feira, 5 de março de 2014

Os riscos das redes sociais


C. N.

Como disse em outro lugar, não quero nem me cabe determinar a cada um como agir concretamente com respeito às redes sociais (Facebook, etc.). Mas, ainda que muito brevemente, quero e devo alertar a todos sobre os riscos que me parece elas implicam.
Como nunca fiz parte de nenhuma, só as tratarei a partir de dois de seus efeitos visíveis: o tempo que se perde em tais redes; o fato notório de que, muito ao contrário do que se anuncia, elas são lugar de inimizades, rixas, contendas, detrações, injúrias.
1) O mundo atual, tanto o capitalista como o comunista ou a mescla de ambos, com sua transformação das pessoas em engrenagens de uma imensa máquina de fazer dinheiro, tirou ao homem grandíssima parte do tempo de ócio, exatamente aquele em que podia viver segundo o que é superior em sua alma: aplicando-se à contemplação, sobretudo de Deus. Impediu, assim, o que para Aristóteles era a vida feliz: a bíos theoretikós (exatamente, a vida contemplativa). Que dizer então do que aconteceu à religião e suas práticas, esta mesma religião que, por virtude sobrenatural, constitui o ápice da vida contemplativa – e de que depende nada menos que a salvação eterna das almas?
Mas há mais. Já desde a revolução industrial e da Lei Le Chapelier, a vida familiar pelo menos se fragilizou imensamente. O divórcio, que veio a tornar-se uma permanente espada de Dâmocles sobre sua cabeça, agravou muito a situação, e é fato que a família está hoje em franca dissolução. Mas some-se a tudo isso a televisão, por exemplo, e tem-se um quadro dramático: os cônjuges ou estão trabalhando, ou estão vendo televisão – ou, ainda, fazendo desta a baby-sitter eletrônica de seus filhos. Como pôr em ação, assim, o tear que dia a dia tece e retece a solidez da família e da criação dos filhos?
Pois somem-se agora a todo o anterior as redes sociais! O imenso tempo que se perde nelas é como a pá de cal sobre a vida contemplativa e sobre a familiar. Em nome de quê? De um simulacro, aliás feio, da vida social autêntica e sã. Já não se trata das boas risadas que se podem dar junto com o amigo; já não se trata da conversa maravilhada no intervalo de um concerto (de música boa, é claro); já não se trata pois da vivência direta de algo a que tendemos naturalmente. Trata-se de algo como um fantasma. Com efeito, para a vida social autêntica e sã, é essencial o contato direto, o rosto amigo diante dos olhos, o enlevo sentido em comum diante do belo. Mas para o sucedâneo de vida social que são as redes sociais basta o virtual, o espectral – uma imagem de rosto, por exemplo. E por aí se vê que tais redes são tudo, menos verdadeiramente sociais.
2) E é daí que decorre o segundo efeito acima enunciado. Neste sucedâneo de “relação social” constituído pelas redes, entre tais imagens fantasmáticas que pretendem substituir-se à presença efetiva do outro, e por trás do biombo da tela do computador, é muito fácil à natureza caída do homem sentir-se todo-poderosa e, em vez de iludir-se com um espectro de relação social, passar a fazer dele um poderoso instrumento de inimizade.
Atrás desse diabólico biombo, quantos não se sentem no direito de afrontar e injuriar o outro? Não raro por “motivos nobres”: defender a religião, uma doutrina, etc. Tal nobreza, porém, muito amiúde se perde totalmente, porque aquela mesma sensação de todo-poder, como parte de algo fantasmático, acaba por logo substituir qualquer motivo nobre – e o que era nobre torna-se ignóbil. Com efeito, o exercício autêntico de qualquer poder requer, necessariamente, a posse do conhecimento que permite esse mesmo exercício. Qualquer poder é tirânico se não fundado em conhecimento o mais perfeito possível. Que se vê nada raramente, todavia, nas redes sociais? Exatamente inimizades, injúrias, detrações, etc., essas pequenas tiranias em nome da defesa de uma doutrina. Mas a defesa de uma doutrina requer conhecimento dela, o qual só se adquire por estudo. Como, contudo, encontrar tempo para tal estudo se ele é consumido por aquelas mesmas redes?
Some-se tudo o que se disse acima e ter-se-á, parece, a razão principal do triste espetáculo de inimizades, contendas, injúrias que vemos transbordar de um espaço virtual e fantasmático para o que nos resta de vida social real. Sim, porque é este um dos efeitos mais malignos das redes sociais: não só roubar à vida social autêntica grande parte do pouco tempo que lhe resta, mas empeçonhar e enfermar cada dia mais este mesmo restante.