terça-feira, 31 de julho de 2012

“Aeterni Patris”, de Leão XIII


AETERNI PATRIS

SOBRE A RESTAURAÇÃO DA FILOSOFIA CRISTÃ
CONFORME A DOUTRINA DE SANTO TOMÁS DE AQUINO

Encíclica

A TODOS OS PATRIARCAS, PRIMAZES,
ARCEBISPOS E BISPOS DE TODO O MUNDO CATÓLICO
EM AÇÃO E COMUNHÃO COM A SANTA SÉ APOSTÓLICA

Aos Nossos Veneráveis Irmãos, Patriarcas, Primazes, Arcebispos e Bispos de todo o mundo Católico, em graça e comunhão com a Santa, Sé Apostólica.

LEÃO XIII PAPA

Veneráveis Irmãos, saúde e Bênção Apostólica.

SUMARIO DA ENCÍCLICA

INTRODUÇAO (ns. 1-5)
1 – Natureza e função do Magistério da Igreja.
2 – O Magistério da Igreja atinge também a Filosofia e as Ciências.
3 – Finalidade da Encíclica: Natureza do estudo filosófico que respeite a Fé e as exigências das Ciências Humanas.
4 – A causa dos males modernos é a difusão das más idéias.
5 – A inteligência bem formada é a causa de numerosos benefícios.
I PARTE: RELACIONAMENTO ENTRE A RAZAO E A FÉ (ns. 6-17)
1 – Embora tenha o campo limitado, a Filosofia é o mais poderoso subsídio para a Fé.
2 – Para reconduzir a sociedade à ordem, a tradição patrística sempre recorreu ao uso da razão bem ordenada.
3 – Subsídios da Filosofia para a Fé: Aplaina os caminhos da Fé -Prova a existência de Deus – Fornece os critérios de credibilidade – Ordena a ciência teológica – Aprofunda os conhecimentos da Fé – Defende a Fé.
4 – Subsídios da Fé para a Filosofia: Prevalece a Fé – A Fé não destrói a Filosofia, mas respeita-lhe os princípios, O método e os argumentos – O mal da Filosofia sem a Fé: O racionalismo – Os bens provenientes da harmonia entre Fé e Filosofia.
II PARTE: A HARMONIA ENTRE RAZAO E FÉ VISTA ATRAVÉS DA HISTÓRIA DA FILOSOFIA (ns. 18-20)
1 – Realizada pelos apologistas.
2 – Realizada pelos Padres da Igreja, Escritores Eclesiásticos e Doutores, máxime por S. Agostinho.
3 – Realizada pelos Escolásticos, máxime por S. Boaventura e S. Tomás.
III PARTE: S. TOMÁS FOI QUEM COM MAIOR PERFEIÇÃO UNIU RAZÃO E FÉ (ns. 21-27)
1 – Excelência e perfeição da doutrina de S. Tomás.
2 – Confirmação dessa excelência: Pelo seu valor intrínseco – Pelas Ordens Religiosas – Pelas Academias e Escolas – Pelos Papas – Pelos Concílios Ecumênicos – Pelos não católicos.
IV PARTE: EXIGÊNCIA DE RESTAURAÇAO DA FILOSOFIA NOS TEMPOS ATUAIS (ns. 28-32).
1 – Conseqüências funestas do abandono da Escolástica.
2 – Louváveis iniciativas para a restauração da Filosofia Tomista.
3 – O Papa deseja esta restauração pelos motivos seguintes: Defesa da Igreja contra os ataques que lhe fazem as más filosofias – Restauração da ordem social – Promoção das ciências.
CONCLUSÃO (ns. 33-35)
1 – Exortação solene no sentido da restauração da doutrina tomista.
2 – Bênção Apostólica.


INTRODUÇÃO

1 – O Filho Unigênito do Pai Eterno, que apareceu no mundo para trazer ao gênero humano a salvação e a luz da sabedoria divina, concedeu certamente ao mundo um grande e admirável benefício, quando, antes de subir ao céu, mandou aos Apóstolos que fossem e ensinassem todas as nações; e deixou a Igreja estabelecida por Ele como mestre comum e supremo dos povos (Mat. 28, 19). Pois que os homens, libertados pela verdade, na verdade se deviam conservar; nem seriam muitos duradouros os frutos das doutrinas celeste pelos quais o homem alcançara a salvação, se Cristo Nosso Senhor não tivesse estabelecido um magistério perpétuo para instruir os entendimentos na fé.
A Igreja, porém, já confiando nas promessas do seu divino autor, já imitando-lhe a caridade, de tal sorte cumpriu essas ordens, que sempre teve em vista, sempre desejou ardentemente ensinar as coisas da religião e combater perpetuamente os erros. A este fim visam os trabalhos esmerados de cada um dos bispos; a este fim, as leis e decretos dos Concílios, e especialmente a solicitude cotidiana dos Pontífices Romanos, os quais, como sucessores no primado de São Pedro, Príncipe dos Apóstolos, têm o direito e o dever de ensinar e confirmar seus irmãos na fé.
2 – Acontecendo, porém, como diz o Apóstolo, que, pela “filosofia e pelos discursos sedutores” (Col. 2,8) as almas dos fiéis costumam ser enganadas, e a sinceridade da fé ser corrompida nos homens, por isso os supremos pastores da Igreja julgaram sempre ser dever seu promover, quanto pudessem, a verdadeira ciência, e ao mesmo tempo providenciar com suma vigilância, para que todas as disciplinas humanas, especialmente a filosofia, da qual em grande parte depende o bom uso das outras ciências, fossem ensinadas em toda a parte segundo a norma da fé católica. Isso mesmo, em outras coisas já vos lembramos de passagem, Veneráveis Irmãos, quando pela primeira vez vos falamos por Cartas Encíclicas.
3 – Agora, porém, em razão da gravidade do assunto e da condição dos tempos, somos obrigados a falar-vos de novo a fim de estabelecermos o método dos estudos filosóficos, que, correspondendo ao bem da fé, seja acomodado à mesma dignidade das ciências humanas.

“SPIRITUS PARACLITUS”, de Benedicto XV


CARTA ENCÍCLICA

SPIRITUS PARACLITUS

DEL SUMO PONTÍFICE
BENEDICTO XV

SOBRE LA INTERPRETACIÓN
DE LA SAGRADA ESCRITURA


1. El Espíritu Consolador, habiendo enriquecido al género humano en las Sagradas Letras para instruirlo en los secretos de la divinidad, suscitó en el transcurso de los siglos numerosos expositores santísimos y doctísimos, los cuales no sólo no dejarían infecundo este celestial tesoro(1), sino que habían de procurar a los fieles cristianos, con sus estudios y sus trabajos, la abundantísima consolación de las Escrituras. El primer lugar entre ellos, por consentimiento unánime, corresponde a San Jerónimo, a quien la Iglesia católica reconoce y venera como el Doctor Máximo concedido por Dios en la interpretación de las Sagradas Escrituras.
2. Próximos a celebrar el decimoquinto centenario de su muerte, no querernos, venerables hermanos, dejar pasar una ocasión tan favorable sin hablaros detenídamente de la gloria y de los méritos de San Jerónimo en la ciencia de las Escrituras. Nos sentimos movido por la conciencia de nuestro cargo apostólico a proponer a la imitación, para el fomento de esta nobilísima disciplina, el insigne ejemplo de varón tan eximio, y a confirmar con nuestra autoridad apostólica y adaptar a los tiempos actuales de la Iglesia las utilísimas advertencias y prescripciones que en esta materia dieron nuestros predecesores, de feliz memoria, León XIII y Pío X.
3. En efecto, San Jerónimo, «hombre extraordinariamente católico y muy versado en la ley sagrada»(2), «maestro de católicos»(3), «modelo de virtudes y maestro del mundo entero»(4), habiendo ilustrado maravillosamente y defendido con tesón la doctrina católica acerca de los libros sagrados, nos suministra muchas e irnportantes enseñanzas que emplear para inducir a todos los hijos de la Iglesia, y especialmente a los clérigos, el respeto a la Escritura divina, unido a su piadosa lectura y meditación asidua.
4. Como sabéis, venerables hermanos, San Jerónimo nació en Estridón, «aldea en otro tiempo fronteriza entre Dalmacia y Pannonia»(5), y se crió desde la cuna en el catolicismo(6); desde que recibió aquí mismo en Roma la vestidura de Cristo por el bautismo(7), empleó a lo largo de su vida todas sus fuerzas en investigar, exponer y defender los libros sagrados. Iniciado en las letras latinas y griegas en Roma, apenas había salido de las aulas de los retóricos cuando, joven aún, acometió la interpretación del profeta Abdías: con este ensayo «de ingenio pueril»(8), de tal manera creció en él el amor de las Escrituras, que, como si hubiera encontrado el tesoro de que habla la parábola evangélica, consideró que debía despreciar por él «todas las ventajas de este mundo»(9). Por lo cual, sin arredrarse por las dificultades de semejante proyecto, abandonó su casa, sus padres, su hermana y sus allegados; renunció a su abastecida mesa y marchó a los Sagrados Lugares de Oriente, para adquirir en mayor abundancia las riquezas de Cristo y la ciencia del Salvador en la lectura y estudio de la Biblia(10).
5. Más de una vez refiere él mismo cuánto hubo de sudar en el empeño: «Me consumía por un extraño deseo de saber, y no fui yo, como algunos presuntuosos, mi propio maestro. Oí frecuentemente y traté en Antioquía a Apolinar de Laodicea, y cuando me instruía en las Sagradas Escrituras, nunca le escuché su reprobable opinión sobre los sentidos de la misma»(11). De allí marchó a la región desierta de Cálcide, en la Siria oriental, para penetrar más a fondo el sentido de la paIabra dívina y refrenar al mismo tiempo, con la dedicación al estudio, los ardores de la juventud; allí se hizo discípulo de un cristiano convertido del judaísmo, para aprender hebreo y caldeo. «Cuánto trabajo empleé, cuántas dificultades hube de pasar, cuántas veces me desanimé, cuántas lo dejé para comenzarlo de nuevo, llevado de mi ansia de saber; sólo yo, que lo sufrí, podría decirlo, y los que convivieron conmigo. Hoy doy gracias a Dios, porque percibo los dulces frutos de la amarga semilla de las letras»(12).

“QUAS PRIMAS”, de Pio XI


A QUAS PRIMAS, encíclica de Pio XI sobre Cristo Rei, foi interpretada liberalmente como apenas um documento estabelecedor de uma festa religiosa. Não o é: é antes de tudo a Carta Magna da Cristandade. É a última palavra do magistério sobre a ordenação essencial (não acidental) de tudo, incluídos os estados, à Igreja e pois a Cristo, sua cabeça invisível: o mesmo, aliás, que dizem Bonifácio VIII na bula Unam Sanctam e S. Tomás de Aquino em De Regno. Em outras palavras, ou os estados são cristãos e membros da Igreja, ou as sociedades se tornam pasto de demônios (Carlos Nougué).

*  *  *

QUAS PRIMAS
Sobre Cristo Rei*

CARTA ENCÍCLICA

Aos Veneráveis Irmãos Patriarcas, Primazes, Arcebispos, Bispos e Outros Ordinários em paz e comunhão com a Apostólica: sobre Cristo Rei.

PIO PAPA XI
Veneráveis Irmãos, saúde e bênção apostólica.

INTRODUÇÃO

1. Na primeira Encíclica, dirigida, em princípios do nosso Pontificado, aos Bispos do mundo inteiro, indagamos a causa íntima das calamidades que, ante os nossos olhos, avassalam o gênero humano. Ora, lembra-nos haver abertamente declarado duas coisas: uma — que esta aluvião de males sobre o universo provém de terem a maior parte dos homens removido, assim da vida particular como da vida pública, Jesus Cristo e sua lei sacrossanta; a outra — que baldado era esperar paz duradoura entre os povos, enquanto os indivíduos e as nações recusassem reconhecer e proclamar a Soberania de Nosso Salvador. E por isso, depois de afirmarmos que se deve procurar “a paz de Cristo no reino de Cristo”, manifestamos que era intenção nossa trabalhar para este fim, na medida de nossas forças. “No reino de Cristo”, — dizíamos; porque, para restabelecer e confirmar a paz, outro meio mais eficiente não deparávamos do que reconhecer a Soberania de Nosso Senhor. Com o correr do tempo, claramente pressentimos o raiar de dias melhores, quando vimos o zelo dos povos em acudir, — uns pela primeira vez, outros com renovado ardor, — a Cristo e à sua Igreja, única dispensadora da salvação: sinal manifesto de que muitos homens, até o presente como que desterrados do reino do Redentor, por desprezarem sua autoridade, preparam, ainda bem, e levam a efeito sua volta à obediência.

“Providentissimus Deus” – León XIII


CARTA ENCÍCLICA
PROVIDENTISSIMUS DEUS
DEL SUMO PONTÍFICE
LEÓN XIII 
SOBRE LOS ESTUDIOS BÍBLICOS

1. La providencia de Dios, que por un admirable designio de amor elevó en sus comienzos al género humano a la participación de la naturaleza divina y, sacándolo después del pecado y de la ruina original, lo restituyó a su primitiva dignidad, quiso darle además el precioso auxilio de abrirle por un medio sobrenatural los tesoros ocultos de su divinidad, de su sabíduría y de su misericordia(1). Pues aunque en la divina revelación se contengan también cosas que no son inaccesibles a la razón humana y que han sido reveladas al hombre, «a fin de que todos puedan conocerlas fácilmente, con firme certeza y sin mezcla de error, no puede decirse por ello, sin embargo, que esta revelación sea necesaria de una manera absoluta, sino porque Dios en su infinita bondad ha destinado al hombre a su fin sobrenatural»(2). «Esta revelación sobrenatural, según la fe de la Iglesia universal», se halla contenida tanto «en las tradiciones no escritas» como «en los libros escritos», llamados sagrados y canónicos porque, «escritos bajo la inspiración del Espíritu Santo, tienen a Dios por autor y en tal concepto han sido dados a la Iglesia»(3). Eso es lo que la Iglesia no ha cesado de pensar ni de profesar públicamente respecto de los libros de uno y otro Testamento. Conocidos son los documentos antiguos e importantísimos en los cuales se afirma que Dios que habló primeramente por los profetas, después por sí mismo y luego por los apóstoles nos ha dado también la Escritura que se llama canónica(4), y que no es otra cosa sino los oráculos y las palabras divinas(5), una carta otorgada por el Padre celestial al género humano, en peregrinación fuera de su patria, y transmitida por los autores sagrados(6). Siendo tan grande la excelencia y el valor de las Escrituras, que, teniendo a Dios mismo por autor, contienen la indicación de sus más altos misterios, de sus designios y de sus obras, síguese de aquí que la parte de la teología que se ocupa en la conservación y en la interpretación de estos libros divinos es de suma importancia y de la más grande utilidad.
2. Y así Nos, de la misma manera que hemos procurado, y no sin fruto, gracias a Dios, hacer progresar con frecuentes encíclicas y exhortaciones otras ciencias que nos parecían muy provechosas para el acrecentamiento de la gloria divina y de la salvación de los hombres, así también nos propusimos desde hace mucho tiempo excitar y recomendar este nobilísimo estudio de las Sagradas Letras y dirigirlo de una manera más conforme a las necesidades de los tiempos actuales. Nos mueve, y en cierto modo nos impulsa, la solicitud de nuestro cargo apostólico, no solamente a desear que esta preciosa fuente de la revelación católica esté abierta con la mayor seguridad y amplitud para la utilidad del pueblo cristiano, sino también a no tolerar que sea enturbiada, en ninguna de sus partes, ya por aquellos a quienes mueve una audacia impía y que atacan abiertamente a la Sagrada Escritura, ya por los que suscitan a cada paso novedades engañosas e imprudentes.
3. No ignoramos, ciertamente, venerables hermanos, que no pocos católicos sabios y de talento se dedican con ardor a defender los libros santos o a procurar un mayor conocimiento e inteligencia de los mismos. Pero, alabando a justo título sus trabajos y sus frutos, no podemos dejar de exhortar a los demás cuyo talento, ciencia y piedad prometen en esta obra excelentes resultados, a hacerse dignos del mismo elogio. Queremos ardientemente que sean muchos los que emprendan como conviene la defensa de las Sagradas Letras y se mantengan en ello con constancia; sobre todo, que aquellos que han sido llamados, por la gracia de Dios, a las órdenes sagradas, pongan de día en día mayor cuidado y diligencia en leer, meditar y explicar las Escrituras, pues nada hay más conforme a su estado.
4. Aparte de su importancia y de la reverencia debida a la palabra de Dios, el principal motivo que nos hace tan recomendable el estudio de la Sagrada Escritura son las múltiples ventajas que sabemos han de resultar de ello, según la promesa cierta del Espíritu Santo: «Toda la Escritura, divinamente inspirada, es útil para enseñar, para argüir, para corregir, para instruir en la justicia, a fin de que el hombre de Dios sea perfecto y pronto a toda buena obra»(7). Los ejemplos de Nuestro Señor Jesucristo y de los apóstoles demuestran que con este designio ha dado Dios a los hombres las Escrituras. Jesús mismo, en efecto, que «se ha conciliado la autoridad con los milagros y que ha merecido la fe por su autoridad y ha ganado a la multitud por la fe»(8), tenía costumbre de apelar a la Sagrada Escritura en testimonio de su divina misión. En ocasiones se sirve de los libros santos para declarar que es el enviado de Dios y Dios mismo; de ellos toma argumentos para instruir a sus discípulos y para apoyar su doctrina; defiende sus testimonios contra las calumnias de sus enemigos, los opone a los fariseos y saduceos en sus respuestas y los vuelve contra el mismo Satanás, que atrevidamente le solicitaba; los emplea aun al fin de su vida y, una vez resucitado, los explica a sus discípulos hasta que sube a la gloria de su Padre.
5. Los apóstoles, de acuerdo con la palabra y las enseñanzas del Maestro y aunque El mismo les concedió el don de hacer milagros(9), sacaron de los libros divinos un gran medio de acción para propagar por todas las naciones la sabiduría cristiana, vencer la obstinación de los judíos y sofocar las herejías nacientes. Este hecho resalta en todos sus discursos, y en primer término en los de San Pedro, los cuales tejieron en gran parte de textos del Antiguo Testamento el apoyo más firme de la Nueva Ley. Y lo mismo aparece en los evangelios de San Mateo y San Juan y en las epístolas llamadas Católicas; y de manera clarísima en el testionio de aquel que se gloriaba de haber estudiado la ley de Moisés y los Profetas «a los pies de Gamaliel», para poder decir después con confianza, provisto de armas espirituales: «Las armas de nuestra milicia no son carnales, sino poderosas para con Dios»(10).

Sobre as Provas da Existência de Deus à Luz da Ciência Natural Moderna — Pio XII


 Alocução “Un ora”, 1952*

ÍNDICE

Introdução
Natureza e fundamentos das provas da existência de Deus
Duas essenciais notas características do cosmo
A) A mutabilidade do cosmo. Fato da mutabilidade
a) no macrocosmo
b) no microcosmo
na esfera eletrônica
e no núcleo
O eternamente imutável
B) A direção das transformações
a) no macrocosmo: a lei da entropia
b) no microcosmo
C) O universo e seus desenvolvimentos
no futuro
no passado
D) O princípio no tempo
1. O distanciamento das nebulosas espirais ou galáxias
2. A idade da crosta sólida da terra
3. A idade dos meteoritos
4. A estabilidade dos sistemas de estrelas duplas e dos amontoados de estrelas
E) O estado e a qualidade da matéria originária
Conclusão

*  *  *

Na manhã de 22 de Novembro de 1951, o Santo Padre Pio XII, vindo de Castel Gandolfo, concedeu uma audiência solene, na sala do Consistório, à Academia Pontifícia de Ciências, por ocasião da “Semana de Estudo do problema dos microssismos, organizada em Roma por esta Academia. Depois do discurso do Santo Padre, o M. R. P. Agostinho Gemelli, Presidente da Academia Pontifícia de Ciências, agradeceu ao Sumo Pontífice e fez menção, enumerando os seus trabalhos particulares, dos acadêmicos pontifícios falecidos durante o ano. Nossa tradução foi feita sobre o texto italiano aparecido em L’Osservatore Romano a 23 de Novembro. Os subtítulos são do texto italiano, a numeração marginal corresponde aos parágrafos do texto.


DISCURSO

dirigido, a 22 de Novembro de 1951,
à Pontifícia Academia das Ciências

Introdução

1. Uma hora de serena alegria, pela qual somos grato ao Onipotente, é-Nos oferecida por esta reunião da Pontifícia Academia das Ciências, e ao mesmo tempo dá-nos a grata oportunidade de palestrarmos com um escol de eminentes Purpurados, de ilustres Diplomatas e de insignes Personagens, e especialmente convosco, Acadêmicos Pontifícios, bem dignos da solenidade desta assembléia, porquanto, indagando e desvendando os segredos da natureza, e ensinando os homens a dirigirem para o seu bem as forças dela, pregais ao mesmo tempo, com a linguagem dos algarismos, das fórmulas, dos descobrimentos, as inefáveis harmonias do Deus sapientíssimo.
2. De fato, a ciência verdadeira, contrariamente a arriscadas afirmações do passado, quanto mais avança tanto mais descobre Deus, como se Ele estivesse vigiando à espera, por trás de cada porta que a ciência abre. Antes, queremos dizer que, deste progressivo descobrimento de Deus, operado nos incrementos do saber, não somente se beneficia o cientista, quando pensa como filósofo — e como poderia abster-se disto?, — mas também tiram proveito todos aqueles que participam dos novos achados ou os tomam para objeto das suas considerações; e, de modo especial, tiram vantagem dele os genuínos filósofos, visto como, tomando das conquistas científicas os impulsos para as suas especulações racionais, daí auferem maior segurança nas suas conclusões, mais claras ilustrações nas possíveis sombras, mais convincentes subsídios para dar às dificuldades e às objeções uma resposta sempre mais satisfatória.

Natureza e fundamentos das provas da existência de Deus

3. Assim movido e guiado, o intelecto humano vai ao encontro dessa demonstração da existência de Deus que a sabedoria cristã reconhece nos argumentos filosóficos, joeirados nos séculos de gigantes do saber, e que para vós é bem conhecida na apresentação das “cinco vias” que o Angélico Doutor S. Tomás oferece como itinerário expedito e seguro da mente a Deus. Argumentos filosóficos, dissemos; mas nem por isto apriorísticos, como de tal os acusa um ingeneroso e incoerente positivismo. Eles operam sobre realidades concretas e certificadas pelos sentidos e pela ciência, mesmo se força probante adquirem do vigor da razão natural.

La Royauté universelle de Notre-Seigneur Jésus-Christ


 Par le P. Reg. Garrigou-Lagrange, O.P.
La Vie Spirituelle, n° 73, oct. 1925, pp. 5-21


Data est mihi omnis potestas in caelo et in terra. (Mt 28, 18.)


Depuis plusieurs années bien des Évêques et Généraux d’Ordres religieux ont demandé au Souverain Pontife une messe et un office en l’honneur de la Royauté sociale de Jésus-Christ. Sous Léon XIII, une pétition signée par le Cardinal Sarto, le futur Pie X, et par d’autres représentants du Sacré Collège, reçut du Saint-Père le meilleur accueil. Depuis lors le mouvement s’est développé, dans le monde entier; environ six cents membres de la hiérarchie ont insisté auprès du Saint-Siège pour l’institution d’une fête spéciale de Jésus-Christ, roi des nations.
A une époque où le mouvement bolcheviste, après avoir avec une fureur satanique ravagé la Russie, cherche à se répandre en Orient, et menace l’Europe entière, on doit comprendre que l’esprit du mal règne fatalement où ne règne plus l’esprit du Christ. La Société des nations, qui se refuse à reconnaître les droits de Dieu sur les peuples, est manifestement et radicalement impuissante à rétablir l’ordre dont elle méconnaît le principe.
Comme l’écrivait le Cardinal Mercier dans sa Pastorale de 1918, « le principal crime que le monde expie en ce moment, c’est l’apostasie officielle des États... Je n’hésite pas à proclamer, ajoutait Son Éminence, que cette indifférence religieuse, qui met sur le même pied la religion divine et la religion d’invention humaine, pour les envelopper toutes dans le même scepticisme, est le blasphème, qui, plus encore que les fautes des individus et des familles, appelle sur la société les châtiments de Dieu ».
Le laïcisme, qui nie les droits de Dieu sur la société humaine dont il est l’auteur, est un crime de lèse-divinité et le plus grand malheur du monde moderne. Pour réparer ce crime, il faut exalter Jésus-Christ, comme roi universel des individus, des familles et des sociétés. Si la royauté universelle du Christ est proclamée et son règne social reconnu, une des principales erreurs du monde moderne sera atteinte dans sa racine même. C’est le point sur lequel insistent les six cents membres de la hiérarchie qui demandent l’institution de la fête de Jésus-Christ, roi des nations.
« Le Saint-Père, écrivait récemment S. Ém. le Cardinal Laurenti (1), juge le projet très beau, très grand, très opportun. Précisément à cause de son importance, ce projet mérite une réalisation digne, grandiose, qui fasse époque, qui donne un ébranlement aux esprits... Pour obtenir cette préparation, il faut agiter, propager la question par la parole et par les écrits... Une telle préparation sera couronnée par un acte solennel du Pape, qui trouverait le monde disposé à en apprécier la portée. »
C’est pourquoi il nous a paru utile de traiter la question dans la Vie Spirituelle, en nous plaçant surtout au point de vue de la vie intérieure, qui doit être l’âme du culte extérieur, soit individuel, soit social.
Voyons 1° ce que nous dit la Sainte Écriture de la royauté universelle de Jésus-Christ; 2° quelle est la nature, le fondement et l’excellence de cette royauté; 3° comment Jésus exerce ce pouvoir royal universel.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Os primeiros filósofos jônios

O texto que se publica abaixo é uma transcrição,[1] revista, da primeira aula (de 6 de novembro de 2009) do “Curso de História da Filosofia: do impulso grego ao abismo moderno”. – Mantém-se aqui o estilo oral.

*  *  *

“Como disse Santo Tomás de Aquino, os primeiros
filósofos, como que constrangidos pela verdade,
foram obrigados a afirmar um princípio não só
primeiro, infinito e eterno, mas também único.”

C. N.

Primeira parte

Quanto ao fato de a filosofia, ou melhor, as ciências filosóficas terem nascido na Grécia há um consenso universal. Restam, porém, duas perguntas cujas respectivas respostas já não alcançam esse consenso. Primeira: nunca houve em nenhuma outra parte do mundo nem sequer brotos ou lampejos filosóficos? Segunda: se a filosofia nasceu na Grécia, por que nasceu nesta e não em outras civilizações?
Comecemos por tentar responder à primeira dessas questões. Nunca houve em nenhum outro canto da Terra nem lampejos, nem brotos, nem centelhas da busca filosófica da verdade? Houve. Podemos datá-los do ano 1.500 a.C., à sombra do Himalaia.
Entre os chamados “livros sagrados” da Índia – os Vedas, que são quatro –, há um (o Rigveda) que já deixava transluzir a ideia de um Deus único. O panteísmo não estava presente em vários trechos do Rigveda. Em muitos lugares transluz a ideia de que Deus é único e todo-poderoso, sendo seus diversos nomes nada mais que isso: nomes. Os outros Vedas são compilações de rituais que não têm muito interesse para nós. No entanto, vejamos como a concepção de um Deus único é entendida pelos seus principais comentadores, aqueles que fazem comentários hermenêuticos e esotéricos (os Upanishads): os brâmanes ou casta sacerdotal. Como interpretam em sua hermenêutica os brâmanes esse conceito de divindade? Vamos por partes: segundo eles de fato há um Deus único, eterno, infinito; este deus é Brâman. Mas pode-se ver este Deus por outro lado, também como uma espécie de alma do mundo ou Atma. É desta alma do mundo que provêm as almas dos homens, como espécies de centelhas do fogo divino. Esta expressão – centelhas do fogo divino – já nos remete, por exemplo, ao Mestre Eckhart na Idade Média alemã e sua doutrina condenada pela Igreja. As almas são centelhas desta como alma do mundo – Atma –, que, por sua vez, é como a outra face deste Deus único e eterno chamado Brâman. Pois bem, não é só que Brâman seja o Deus único, infinito e eterno; ele é mais que isso. Ele é a única realidade, não havendo outra senão ele mesmo (Brâman ou Atma) e suas centelhas, que são as almas humanas. Tudo o mais, o mundo dos fenômenos, é pura ilusão. É o que eles mesmos chamam maia, uma espécie de ilusão dos sentidos; estes nos enganam, fazendo-nos ver, sentir e perceber um mundo em fluxo permanente e contínuo, um mundo variado, diverso, com fenômenos que não passam de mera ilusão (maia); tal ilusão nos é impingida pelos nossos “traiçoeiros” sentidos. Pois bem, se Brâman é não só o Deus único, infinito e eterno, mas, mais que isso, é a única realidade (da qual se desprendem as almas humanas, que por sua vez se dividem em três castas: casta sacerdotal ou bramânica, que sai da cabeça de Brâman; casta militar, que sai do peito de Brâman; e, por último, a casta servil, que sai dos pés de Brâman),[2] tudo quanto não é Brâman será o mal, a dor universal causada pela ilusão dos sentidos, do ser e do mundo dos fenômenos. Ora, esta concepção implica, pois, uma doutrina de finalidade para a vida humana, qual seja: se só Brâman é a realidade, se tudo quanto não é Brâman é ilusão, dor e sofrimento, resta aos homens, pela ciência, pela gnose, pelo conhecimento dessa realidade única e suprema que é Brâman, lutar já nesta vida para perder sua própria individualidade e deixar a multiplicidade, a manifestação, para voltar à unidade da realidade única que é Brâman ou Atma. Daí uma série de práticas ascéticas que levariam à anulação do eu, a uma anulação da individualidade na realidade única, no ente único. Se nesta vida o homem não consegue alçar-se, pelo conhecimento, pela ciência, a essa realidade e bem únicos e, ademais, fica atrelado, se torna servo dos sentidos e de sua ilusão (o mundo dos fenômenos), transmigrará em metempsicose de corpo em corpo até que um dia, em determinado corpo, purgue o mal (o estar servil ao mundo fenomênico dos sentidos) e possa então tornar a dissolver-se, enfim, na unidade de Brâman.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

“O pitagorismo: o número como princípio de tudo” e “Xenófanes e o Deus-cosmos”

O texto que se publica abaixo é uma transcrição,* revista, da terceira aula (de dezembro de 2009) do “Curso de História da Filosofia: do impulso grego ao abismo moderno”. – Mantém-se aqui o estilo oral.

*   *   *
C. N.

Hoje vamos tratar de Pitágoras e os pitagóricos, ou seja, do pitagorismo e sua noção de que o princípio de tudo é o número; e também de Xenófanes e sua noção de deus-cosmos, que resultava de uma crítica demolidora do antropomorfismo da religião pública grega. Antes, porém, de começarmos, é preciso fazer algumas considerações, ao modo recapitulativo, para que se consolidem noções essenciais, sem o que se perde o fio de ligação de toda essa história que estamos aqui traçando calmamente e que vai resultar, dentro de pouco, na primeira grande e sólida filosofia que conheceu o homem: a de Aristóteles.
Relembremos: os três primeiros filósofos jônios – chamados da phýsis, da natureza – encontravam um primeiro princípio, quer, com Tales de Mileto, na água; quer, com Anaximandro, no ápeiron, no indeterminado e ilimitado; quer, com Anaxímenes, no ar. Relembremo-nos que este princípio de tudo – água, ápeiron, ar – é não só o princípio de onde deriva tudo, mas também aquilo de que tudo é feito, aquilo de que tudo se compõe e aquilo em que, enfim, tudo se dissolve, a que tudo retorna. Se falarmos já com a linguagem aristotélica, com os conceitos aristotélicos, teremos que esse princípio dos três primeiros jônios é ao menos não só a fonte e a causa material (e a eficiente e a formal, afinal de contas) de tudo, mas também a causa final de tudo; o princípio material (e eficiente e formal, ao fim e ao cabo) e o princípio final. Tudo provém desse princípio, tudo dele é composto, tudo é feito dele e tudo nele termina, tudo marcha para ele como para seu fim. Ora, esta confusão entre Deus e tudo, esta confusão entre Deus e o mundo, essa confusão, como vimos, entre Deus e a alma ou o princípio substancial das coisas, isso não será negado por Heráclito de Éfeso. Muito pelo contrário: sua filosofia será como um coroamento deste princípio do filosofar humano. E de que modo coroa a filosofia dos três primeiros jônios ele, que também era jônio, que também era um filósofo da natureza? Coroa-a dizendo que nada no mundo, no universo tem estabilidade, que tudo flui, tudo muda, pánta rheî, em suas palavras gregas. Tudo flui, nada é estável. Ao mesmo tempo, tudo parte, se compõe e resulta – como em seu fim – de um princípio único. Já não é a água, já não é o ápeiron, já não é o ar: é agora o fogo. O fogo é o princípio e o fim de tudo; é o alfa e o ômega; é Deus e, ao fim e ao cabo, é a alma humana. Mas retenhamos sobretudo esta afirmação central da filosofia de Heráclito de Éfeso: pánta rheî, tudo flui. Não entramos duas vezes no mesmo rio, não somos os mesmos ao entrar a segunda vez no mesmo rio, a ponto de um discípulo de Heráclito – Crátilo – reduzir toda a sua atividade a um mero balançar de dedo, porque – dizia – nem nosso pensamento é o mesmo duas vezes e, portanto, nada do que se compreende com o pensamento é o mesmo duas vezes. Esta é, aliás, a melhor refutação da própria filosofia de Heráclito; é a própria redução ao absurdo dela por suas consequências extremas.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

A Escola Eleática (1ª. parte): Parmênides e Zenão

O texto que se publica abaixo é uma transcrição,* revista, da quarta aula (de 20 de dezembro de 2009) do “Curso de História da Filosofia: do impulso grego ao abismo moderno”.  – Mantém-se aqui o estilo oral.


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C. N.

Já percorremos um caminho importante no nosso curso e paramos na última aula com Xenófanes, com a afirmação de que ele não é propriamente o fundador da escola eleática. Nisto estou de acordo com Reale, contra certa e longa tradição. O fundador da escola eleática é Parmênides. E é por ele que começamos esta aula.
Relembremos: já tocamos aqui o assunto “univocidade do ser”, o monismo. Tudo, na realidade, reduz-se a um, e vimos que, de alguma maneira, os filósofos jônios terminavam num monismo. Para eles, a complexidade do real se reduzia a uma só coisa: mono, monismo. Vimos mais. Vimos que Heráclito, o filósofo do devir, aquele que dizia que o ser não tem estabilidade, que o ser não é senão no devir, senão na transformação, ele mesmo, porque afirmava que os opostos, os contrários se identificam numa síntese, ele mesmo terminava numa espécie de monismo. Sim, porque, onde tudo se identifica, só há um, ao fim e ao cabo. Mas tanto com relação aos filósofos jônios como, sobretudo, com relação a Heráclito só se pode falar de monismo em sentido lato. O monismo stricto sensu começará com Parmênides. A escola eleática era uma escola assim como o será a Academia de Platão, etc., e é chamada eleática porque, com efeito, foi fundada por Parmênides em Eleia, na Magna Grécia, Itália meridional.
Estamos por volta do século V. Quem foi Parmênides, do ponto de vista biográfico? Interessa-nos sobretudo, quanto a isto, o fato de ele ter sido, ao que tudo indica (e até segundo autores antigos), um pitagórico; mas certamente de um pitagorismo heterodoxo, herético. Parece ter sido discípulo de um pitagórico chamado Almínia. Veremos que sua filosofia vai voltar-se contra dois alvos, ou até três, mas principalmente contra estes dois: por um lado, contra a filosofia do devir, contra a filosofia da não estabilidade do ser que é a filosofia de Heráclito, mas também, por outro, contra o próprio pitagorismo, porque dizia o pitagorismo que o ser e o não ser coexistem. Mais que isso, seguindo um pouco as pegadas de Anaximandro, diziam os pitagóricos que o cosmos se forma pela inspiração que o uno faz do vazio, do nada, ou seja, o próprio cosmos e seus fundamentos numéricos, os princípios numéricos das coisas, dos entes que constituem o cosmos, seriam resultado, para os pitagóricos, da aspiração que o uno teria feito do vazio, do nada ambiente. Insista-se: é dessa inspiração do nada, do vazio — um vazio semelhante, por certo ângulo, ao ápeiron de Anaximandro — que se formaria, por princípios numéricos, o cosmos pitagórico. 

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Heráclito de Éfeso: nada é senão enquanto não é

O texto que se publica abaixo é uma transcrição,* revista, da segunda aula (de 20 de novembro de 2009) do “Curso de História da Filosofia: do impulso grego ao abismo moderno”. – Mantém-se aqui o estilo oral.

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C. N.

Antes de começarmos propriamente a aula de hoje, façamos um brevíssimo resumo da aula anterior. Na aula anterior vimos três filósofos jônios: Tales de Mileto, Anaxímenes e Anaximandro. Vimos que para Tales e Anaxímenes o princípio de tudo, ou seja, aquilo de que tudo surge ou procede, aquilo em que tudo é, aquilo de que tudo é e em que tudo se dissolve, era um princípio material, um elemento. Para Tales, a água; para Anaxímenes, o ar. (Anaximandro tinha outra posição: para ele, o primeiro princípio não era a água, nem o ar, nem nenhum outro elemento, mas o ápeiron, o sem péras, ou seja, o perfeitamente indeterminado; o que requer discussão à parte, porque, com efeito, como veremos já com Aristóteles mas cabalmente só com Santo Tomás, tanto o que é pura potência passiva – a matéria prima – como o que é Ato Puro sem mescla de potência passiva – Deus – são de todo sem determinação, por razões, porém, como se acaba de dizer, estritamente inversas. Mas o que é precisamente o ápeiron de Anaximandro? Algo talvez como o gnóstico Não manifestado.) Vimos que as aporias desses primeiros filósofos jônios eram: como atribuir a algo que é mutável o ser princípio de todas as coisas? Podemos dizer que, conquanto já desde Tales se note o impulso da filosofia grega no sentido de ansiar a própria solução, a própria resolução de suas aporias ou becos sem saídas intelectuais, o fato é que não podemos deixar de ver nesse pensamento jônio inicial uma grave ofensa ao senso comum, uma grave ofensa à razão natural, uma grave ofensa à correta e justa metafísica implícita no senso comum ou razão natural. Quando digo metafísica implícita na razão natural, refiro-me a algo que veremos aprofundadamente mais adiante. É a razão natural capaz de captar ao menos implicitamente, por exemplo, o que se chama princípio de finalidade? Ou seja, que tudo quanto há tem um fim? Sim, porque do contrário as crianças não perguntariam infindamente, interminavelmente “para quê?, para quê?, para quê?”. Está nesta pequena locução (“para quê?, para quê?, para quê?”) a prova, uma prova evidente, de que a razão natural, o senso comum humano capta ainda que implicitamente o princípio de finalidade. Mas também é de razão natural perceber que, se este mundo não pode ser causa de si mesmo e é imperfeito (por que imperfeito? porque as coisas nele nascem e morrem, nascem e perecem, mudam, devêm, somem, desaparecem, aparecem), é de razão natural, então, entender, captar que o que não é perfeito tem de ter uma razão perfeita; o que muda tem de ter uma causa imutável. Isso, é claro, capta-o a razão natural de forma mais ou menos confusa, mas o fato é que está implícito. Ora, se assim é, e se os primeiros filósofos se chocam, ofendem, magoam essa metafísica implícita da razão natural, devemos apontá-lo; e não agir como Giovanni Reale – eis uma das críticas que temos mais agudas ao conhecido historiador da filosofia. Diz ele: erra Aristóteles ao criticar os filósofos anteriores segundo conceitos que são de sua própria doutrina. Mas, se são os conceitos corretos, como não fazê-lo? Se são os conceitos que já estão implícitos na própria razão natural, na própria razão do homem, no próprio senso comum humano, como não criticar aquilo que ofende, aquilo que fere essa metafísica implícita e o seu desdobramento científico, que é a sã doutrina filosófica do mesmo Aristóteles? Como não usar de seus próprios conceitos que alcançam a verdade para criticar aquelas doutrinas, aqueles sistemas de pensamento que não atingem a verdade? Ora, a postura de Giovanni Reale, ao reprovar Aristóteles por isso, supõe uma concepção historicista da história da filosofia. Mas a única atitude justa do historiador da filosofia e do filósofo e do teólogo é estar de acordo, estar conforme à verdade. Seu único compromisso é com a verdade, não com os limites dados por cada um dos sistemas filosóficos. Se os sistemas filosóficos anteriores a Aristóteles feriam, ofendiam a metafísica implícita da razão natural e, pois, a verdade, é óbvio que ele devia criticá-los com os instrumentos que ele mesmo forjou, com os conceitos que ele mesmo engendrou na sua muito melhor adequação intelectual à realidade. Insistimos, pois, com Aristóteles, que os primeiros filósofos feriam princípios fundamentais da metafísica implícita ao senso comum, e da verdadeira e sã doutrina filosófica.